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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Trevas

O ar no Brasil é cada dia mais viscoso de óleo-de-rícino, ambiente em que se movem com desenvoltura criaturas sem ossos, abortadas das cloacas de nossa história disco-riscado, e nossa cultura de capacho, que abomina a clareza, a simplicidade, a confiança. Confirmamos todos os dias nossa opção como um povo que entende a vida como a batalha de todos contra todos - exceto o Rei, que é bom - cegos ao passado, eternamente de costas ao resto do planeta, exceto por deslumbre turístico, achando normal carregar carimbos que provam que você pagou a alguém dizer que sua assinatura parece com sua assinatura. Um país que poderia seguir o exemplo de muitos outros e deixar de ser idiota - mas, infelizmente, idiota demais para seguir exemplos.

1. Juiz considera que, após passado um tempo, matérias "cumpriram sua função de informar" e podem ser retiradas de circulação. Depois de alguns terem lido, podemos queimar os livros. No governo Figueiredo, Xuxa teve de comprar de volta seu video pornô e sua Playboy. Hoje, quando você não gosta de uma infomação, basta ter um advogado.

2. Tribunal do Rio Grande do Sul considera carta psicografada como prova. Aguardo o tribunal passar a aceitar a prova do ferro em brasa contra bruxaria: colocamos o ferro na mão da bruxa, se ela for inocente, não sairá queimada.

3. A volta do diploma de jornalista. Políticos, sindicatos que não representam e a "mídia independente", lindo ménage-a-trois, não? Tornando o Brasil a única não-ditadura onde é ilegal Richard Dawkins entrevistar cientistas, como ele faz com frequencia. Sabem o que eu notei? A maioria dos que se postam a favor do diploma - e que têm registro em sindicatos que pressionam por isso - são assessores de imprensa que não conseguiram espaço na carreira. Pessoas que, sem nunca terem trabalhado com jornalismo, se dizem jornalistas - afinal, possuem um certificado de jornalista, emitido por pessoas que também tem um certificado similar. A função do assessor de imprensa é a do anti-jornalista: conduzir e manipular a informação na direção que a empresa deseja. Curioso serem esses os histericamente bradando que o curso seja uma garantia na manutenção de uma ética a qual jamais estiveram ligados, contra o direito dos outros trabalharem onde eles não se demonstraram capazes.

4. Bem, trevas... o plano de fundo é um tanto óbvio, não é?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Bom e Bonzinho

Existe ser bom e existe ser "bonzinho". Uma coisa é ser moral, outra é não ter o respeito das pessoas. Existe não abusar dos outros, e existe se permitir ser abusado. Pode soar surpreendente, mas há gradações de atitude entre ser Hannibal Lecter e motivo de piada para as crianças da 6a série na escola da sua rua.

Em verdade, não são só os nerds bonzinhos que confundem as coisas. Há quem ache que qualquer manifestação de moralidade equivale a masoquismo, a se expor ao abuso. Trata-se de uma perversão de alguns conceitos tipicamente cristãos. Confudem as coisas porque o bonzinho, o passivo, é encarado como sinônimo do bom, o moral, correto. E, assim, não veem outra forma de se ser bom exceto sendo derrotado, humilhado, martirizado. Em disputas, temos o cacoete cristão a achar que sempre o mais fraco é mais correto, assim como o que perde e o que não parece agressivo.

A origem dessa confusão é fácil, no conselho mais inviável (ou, diriam os cristãos, árido) de Jesus, o "ofereça a outra face". Se a civilização cristã como um todo tivesse seguido tal conselho de seu Messias, o cristianismo há muito teria sido extinto, se não nas invasões bárbaras, certamente nas conquistas islâmicas.

Mesmo cristãos nunca conseguiram viver por essa máxima. E esse fato inspirou Gandhi, que era adepto dessa exata forma de pacifismo, a dizer que adorava Cristo mas não gostava dos cristãos, porque não se pareciam com ele. Mas o fato é que os adversários de Gandhi estavam dispostos a ouvir seus argumentos - a Inglaterra não era um bully do mundo, era mais o dono da bola.

Quando falo em "bem", não digo que isso tenha um sentido maniqueísta simples, cruzadas ou expurgos. Falo do desejo em não ser amoral, anômico, viver por algumas premissas. Ser tolerante, entre as minhas.

Eu não acredito numa bondade passiva, puramente cristã (ou ao menos puramente baseada nessa fala de Cristo). Acho que aquilo que é justo deve andar armado, porque o que é injusto certamente andará - digo como metáfora, mas isso pode ter a forma literal às vezes, eu não sou pacifista. Acredito que forças destrutivas são indispensáveis para que haja o bem, entre elas as que demolem coisas moribundas e nocivas - os iconoclastas - e também as que ridicularizam o mal - os moralistas.

domingo, 27 de setembro de 2009

Cristãos que perderam o caminho da igreja

Nietzsche estava certo. Não em suas soluções, mas em suas constatações.

Educado para ser pastor, começou a enxergar cristianismo em todo lado. O pensamento racional iluminista era mal-disfarçado cristianismo reescrito e, desde Sócrates, todo racionalismo havia sido uma forma de odiar a vida em prol de um mundo mais "alto", espiritual. A razão se tornou uma forma não de nos libertar das superstições ancestrais, mas de nos manter acorrentados ao mesmo pesar constante, o Memento Mori, o ansiar pela eterna vida perfeita, desprezando a vida curta e real.

Cada dia menos eu tenho paciência com esses cristãos que perderam o caminho da igreja. Os cristãos propriamente ditos, que se admitem enquanto tais, esses ao menos reconhecem a origem de suas ideias - e as igrejas de verdade não são tão regressivas e destrutivas quanto esses cultos puritanos leigos todos.

Criptocristãos os que, como membros de seitas, acreditam que as pessoas de poucas gerações atrás são um bando de idiotas que não sabia fazer nada direito, já que perderam a mensagem original, a de tempos remotos. Aquela que os primitivos, os selvagens, ainda conhecem, e à qual algum profeta furioso pode nos conduzir novamente.

Também são crentes de paletó ensebado aqueles que vivem num miasma de melancolia niilista, como se isso fosse purificá-los de algum pecado existencial - do capitalismo, da vulgaridade, da normalidade. "Goticrentes" - qualquer pessoa dark tem algo de beata espanhola.

Há os que nessa linha decidem, feitos os shakers do século 19, que somos uma praga sobre este mundo, e devemos parar de nos reproduzir, em busca da extinção voluntária.

Pessoas que falam como se fosse melhor a época, poucos anos atrás, quando ainda tentávamos trazer a Nova Jerusalém para a Terra, imanentizando o escathon. No tempo em que toda a vida presente era tida por desprezível quando comparada a esse brilhante futuro utópico.

Puritanos para quem toda mínima mácula leva a uma condenação completa. Para quem ou as coisas são puras ou não merecem existir. Que é melhor que o mundo queime em revoluções e vandalismo que se admita viver num sistema que não almeja à perfeição, a ser divino.

E também os neofranciscanos, que não hesistariam de trocar toda a obra humana por um matagal qualquer. Uma coisa que não é fruto de nosso vil orgulho, mas do engenho perfeito divino, parasitas inclusos.

Existe ainda aquela moral fácil contemporânea, fácil enquanto a guerra está longe. A que prega com convicção que bondade e passividade são equivalentes, que a ovelha é sempre melhor que o lobo. Que dar a outra face encontrará sempre reciprocidade, que todos os conquistadores são romanos - ou britânicos, já que Gandhi foi mais cristão que hindu em sua reação - interessados em ouvir, e não khans furiosos ou muhaidins arrogantes, que julgam não haver nada interessante fora daquilo que trazem consigo.

E os crentes mais óbvios de todos, os que esperam pelo Apocalipse iminente. O mundo vai acabar, pois Deus está irritado com a gente estar se divertido tanto. Então, exceto se ouvirmos Seus profetas e nos tornarmos frugais e humildes, com carros modestos e não jipões pecaminosos, cheios de orgulho, Ele mandará outro Dilúvio - e será em água mesmo, furacões, a subida dos oceanos, derretimento das geleiras. Há também seitas para profetizar a data.

Em suas vidas pessoais, esses crentes geralmente se dizem contra a religião organizada e, se não são abertamente céticos, constroem um cristianismo de bufê, montado segundo suas preferências. A falta de rigor na religião propriamente dita acaba então sendo transferida para essas crenças "racionais" e "científicas" absolutistas.

Não aguento mais ver a versão acadêmica da Congregação Cristã odiando a própria vida e tentando me convencer que a minha é algo odioso também. Proponho o seguinte: Deus está morto, mas não conto pra ninguém. Vão procurar uma igreja.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cadeia, Inferno e Ostracismo

Aí ouço dizer que entrar em uma festa gay vis-a-vis estuprar moças ou cabritas é "questão de gosto", por isso não é comparável. Ora, meu amigo, entre tantas coisas proibidas pelo bom-Deus, o que há nesse "gosto" em cabritas vs. efebos vs. cadáveres além da própria natureza? O que você não sente vontade de fazer, não faz, e há muito mais nesse "não sente" do que um patético "medo do inferno". Ou alguém acha, realmente, que antes da descoberta judaica do Inferno as pessoas viviam a se trucidar ao primeiro impulso? Que nós saímos da África (perdão, do Éden) e quase nos extinguimos de bestas que éramos, andando em grupos que iam minguando a cada dia pois, na ausência do Inferno, todos iam se degolando uns aos outros. Que sumérios, egípcios, persas, gregos e romanos, esses monstros, se matavam feito ratos numa gaiola até serem civilizados pelo Deus do deserto.

Uma parte do argumento por uma moral secular é muito fácil. Existe uma evidente restrição social para não se matar, em qualquer comunidade por mais primitiva, que é o que, ao perturbar a ordem de um grupo com um assassinato, você pode ser detestado por todos - e morto.

Mas essa parte não resolve os dilemas realmente dostoievskianos, não dá uma razão para não matar uma pessoa longe da vista de todos, na certeza da impunidade. A razão, direi eu, não está na razão, mas numa plétora de sentimentos morais que temos de nascença, mas são adestrados pela cultura.

Afinal de contas, o que são o remorso, a compaixão, a empatia? Antigamente, ninguém teria dúvida em classificá-los como de origem divina, pois são os sentimentos que apareceriam na relação com Deus. Mas ateus também tem esses sentimentos.

Vou propor um exemplo desagradável. Imagine uma caixa de papelão com cinco filhotes de golden retrivier. Uma pessoa primeiro abre um frasco de clorofórmio e coloca entre os cãezinhos. A seguir, essa pessoa atira um frasco de álcool sobre os animais desacordados. E agora ela mostra um fósforo a você.

Não há nenhuma prescrição Bíblica para o bom tratamento de animais, menos ainda cães, que eram considerados sujos pelos judeus antigos. Não há qualquer causa humanista liberal envolvida, porque são bichos, propriedade do maluco do clorofórmio. Do ponto de vista utilitário, não há dor, porque eles estão desacordados. O que há então de imoral, aviltante, errado em sequer permitir que essa pessoa prossiga?

Nossa cultura humaniza bichos, de forma que, para bem e para mal, somos uma cultura que adapta as regras que adota para pessoas para os animais, mas essas regras não estão inscritas nem nas leis, nem na religião. O fato de uma regra meramente cultural ser obedecida sem qualquer base legal, moral ou religiosa prova, portanto, que somos capazes de ter travas morais sem ameaça direta, por internalização de sentimentos morais: pela mesma repulsa que temos pelo infanticídio, é insuportável a visão do assassinato de filhotes de cachorro - ainda que matar cachorros não "leve ao inferno" nem à cadeia.

O que eu quero dizer, portanto, é que acredito que a moral funciona muito mais pelo adestramento, através da cultura, de nossos sentimentos morais - empatia, remorso, compaixão, nojo etc. - do que por simples ameaça "do Inferno". Pouquíssimas pessoas, em verdade, são capazes de se abstraírem de todos seus sentimentos morais quando "ninguém está vendo" - o nome desses é psicopatas, e a religião nada pode fazer por eles. Pense em Jeffrey Dahmer, que se considerava cristão, ou Charles Manson, que se considerva cristo.

Isso não quer dizer que religião ou filosofia moral sejam inúteis. Apenas que elas dão a base onde se forma a cultura que adestra nossa natureza moral. Regras escritas em livros foram seguidas por analfabetos ao longo dos séculos. Essas leis são tão difíceis de esquecer que somos oprimidos pelo puritanismo protestante de ateus politicamente corretos, dizendo que o mundo vai acabar se continuarmos a viver "em pecado", nos divertindo tanto.

domingo, 30 de agosto de 2009

A Melhor Resposta

O famoso argumento de Karamazov, usado por conservadores religiosos, diz que "Se Deus não existe, tudo é permitido", isto é, não apenas não existe moral sem religião como é bom que esse tal de Deus exista, porque se não tudo foi pro vinagre.

Daí que eu já ouvi gente cristã e igrejeira dizendo que, não fosse pela ameaça do inferno, estariam roubando e estuprando. Além de eu jamais permitir que esse tipo de cristão leve minha vovozinha para casa, existe a melhor resposta de todas a esse argumento, descoberta por David Hume do Secular Right.

A próxima vez que um conservador cristão lhe disser que tudo o que o impede de pisar em gatinhos é o medo do inferno, retruque:


Então, se não estivesse proibido na Bíblia, você participaria de uma orgia gay?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tag cloud

Sou vizinho da Bola de Neve Church. Por muito tempo fiquei intrigado, sem conseguir responder se eles eram uma cambada de frívolos trazendo vergonha ao mundo evangélico taleban ou uma cambada de evangélicos taleban trazendo vergonha ao mundo frívolo.

Agora não tenho mais dúvida. Peguei o mesmo ônibus que duas mocinhas, fieis da Church. Foi mais ou menos assim:

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dawkins

Sendo eu um ateu, é meio como falar daquele parente que veio junto, entornou todas e vomitou no carpete. Não sei por que Dawkins não quer deixar as pessoas religiosas aproveitarem a vida, não sei. Definitivamente é o argumento mais boçal imaginável para não crer esse de "venha para onde está o prazer, venha para o mundo do indecoro". Pombas, até meu pai, que é filho de um pastor da Assembléia de Deus e hoje é diácono da Igreja do Evangelho Quadrangular, resolveu ter seu momento de fuzarca na juventude. Isso não quer dizer nada, ser ateu não é "aproveitar a vida", é uma decisão intelectual com seriíssimas e muitas vezes dolorosas consequências. Muito mais fácil, aliás, parece ser aproveitar a vida ao lado do Grande Amigo Invisível. E essa campanha cafajeste dá toda a razão para quem acredita ateus são um bando de pilantras, que na falta de Deus toda moral é insustentável.

Para ser bem sincero, a própria religião me parece uma espécie de prazer culpado. Quando um religioso é escanteado em argumentos, demonstra a mesma agressividade envergonhada daquele gordinho que é pego à 1h30 assaltando a geladeira.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Dies Irae

Há um tempo, tentei explicar sem muito sucesso a relação entre individualismo cultural e império da lei. De, aqui no meu exílio, rever minha família protestante cantando suas cantigas de espantar o demo, ocorreu-me uma fórmula bem mais simples - e weberiana.

Protestantes acreditam que o dia do julgamento pode acontecer a qualquer instante - mesmo, você já deve ter visto algum dia um daqueles adesivos "em caso de arrebatamento, este carro ficará descontrolado" - é sério, o dono do carro acha que Deus pode vaporizá-lo para os céus a qualquer instante, caso decida que está meio com vontade de acabar com o mundo.

O que isso significa? Que ninguém pode estar em pecado em nenhum momento, já que há o risco de você ser pego de supresa pelo Apocalipse. Imagine só, e se o Arrebatamento acontecer justo quando meu olhar escorregou aqueles trinta centímetros pelas costas da vizinha? Ai, já viu, perdeu, Mané.

Protestantes não se confessam, pedem desculpas diretamente a Deus em orações silenciosas. E aqui você já tem elementos o bastante para entender como o individualismo cultural ocorreu em países protestantes. O protestante internaliza a Lei de Deus, e sua culpa ou inocência, pecado ou santidade são completamente independentes do mundo a seu redor, do julgamento ou conhecimento de qualquer outra pessoa - inclusive o pastor, que é um guia, mas não absolve pecados de ninguém.

Quando dos saques nas enchentes de Santa Catarina, um dos saqueadores foi entrevistado, perguntaram-lhe se roubar era certo. Ele disse, "não, mas eu vi todo mundo fazendo". É a mesma lógica com a carteira de estudante falsificada e a infinidade de trapaças que o brasileiro médio toma por contravenções menores: a moral não é julgada individualmente, mas pelo que os outros estão fazendo. Isso é coletivismo cultural, e é um dos ingredientes de nossa corrupção.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Dois pelo preço de um

E toma lá vocês outro do City Journal hoje. Roger Scruton: "Deus está morto, só não espalhe por aí".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Tristeza do Jeca, complete edition

Contei 4 posts em que eu falava que ando ruim-de-ruim-de-ma-ré-de-si e acabei transformando em rascunhos porque, pessoa pública que sou, isso poderia soar mal a um possível empregador. Ao menos assim me disseram meus amigos sensatos.

Pois é, seu empregador, ando jururu de tudo, mas sou trabalhador.

Em 15/05/09: Batendo do pescoço
Minha depressão atingindo o grau "CVV", pergunto-me: devo criar um blogue querido-diário para falar da vida, não de política neoliberal? Alguém quer ouvir minhas agruras outonais? Porque, porra, eu quero falar.

Esta semana eu rezei e nem sabia para quem era.

Hoje, às 15h24: Update
Caros leitores, estou ainda vivendo o pior instante de minha vida.

Hoje, às 17h16: Querido diário
Tenho rezado muito. Que isso aconteça no tipo de situação que está acontecendo comigo, no último inferno em que a vida veio a me colocar, não é o que eu consideraria um ponto muito em favor das religiões.

Hoje, às 19h07: Tristeza do Jeca
O mundo caiu sobre mim com um peso tão imenso que rezo, todos os dias, sem saber direito para quem. Amanhã começo a tomar razão para viver por via oral.


(E assim se acaba minha chance de constuir carreira como ateu profissional).

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pseudociência progressista, materialismo conservador

Você segue o blogroll aqui ao lado, eu não deveria precisar dizer isso, mas ter lincado alguém não quer dizer um endosso a qualquer coisa que essa pessoa diga.

Há momentos de ser lembrado que os universos mentais onde vivem eu e os conservadores iliberais são distintos, distantes. Por exemplo quando eles emparelham numa oração comunistas-ateus-e-homessexuais, nós, os cavaleiros do Apocalipse.

Aprecio o ceticismo dos conservadores em relação ao progressismo e seu otimismo desvairado quanto à natureza humana, ceticismo ao quanto podemos realmente mudar por educação e "vontade política". Compartilho com os conservadores o senso de História da alma humana, de perceber que o que realmente importa não muda, que há sabedoria no tempo, que é possível pensar a mim mesmo em Roma ou na Idade Média sem para isso fazer uso do anacronismo imbecil e vulgar hollywoodiano, dizer "ô, pessoal, deixa disso, a onda agora é beijar pelado". Eu mesmo tenho minhas dúvidas quanto a capacidade de, se não de todas, ao menos da maioria das pessoas de se guiar por princípios racionais.

Mas o que eu sou é um ultramodernista, não o oposto. A profunda dúvida que tenho em relação às causas progressistas é a mesma da boa ciência contemporânea em relação a si mesma, uma vez que a busca pela verdade tem como resíduo uma imensa dose de mentira. A ciência hoje é complexa, admite o que não sabe e não pode, e mostra como, na natureza humana, há muitas coisas tramando contra nossa felicidade.

A ciência tornou-se assim trágica e um de seus maiores inimigos é seu próprio passado, o século 19 e sua certeza que, em se fazendo os cálculos necessários, sempre seria possível se determinar o melhor dos resultados.

Se enfrento o pensamento de esquerda é por considerá-lo pseudocientífico, e a literalidade disso que digo é cristalina para quem já se aventurou pelas equações d'O Capital. Como para além de marxismo, keynesianismo e utilitarismo há também o populismo, o socialismo pode ser não apenas pseudociência como pura e inabalada superstição popular. Pode ser tanto a homeopatia quanto a garrafada de abacate da ciência econômica.

De volta aos conservadores, ainda não respondi a essa caracterização, eu, o ateu, de braços com o militante casca-grossa do PSTU e uma drag queen, onde andamos não nasce grama. Acredito que cada citação da utilidade de Deus que um conservador faz, cada vez que afirma que a religião tem função social ou pessoal, é outro prego no caixão de Deus.

Não acreditar em Deus já significou ser louco, não enxergar o óbvio, rejeitar a realidade. Hoje, na cabeça do conservador religioso, é como ser um fumante, um peso na conta da saúde pública. Isto é, o conservador oferece causas materialistas para acreditar em Deus. Junte isso ao fato de as igrejas mais bem-sucedidas estarem anunciando um Deus que entrega carro e apartamento, e pode se ver o quanto Deus está morto, o quanto todos são profundamente incrédulos hoje em dia.

Enquanto todos são materialistas, buscam a Deus para aumentar sua conta corrente ou regularizar sua absorção de serotonina, eu, ateu, defendo uma moral baseada em ideias. São muitas as ironias.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Pout-pourri desgraceira

  • O problema em se causar piedade é que, quanto melhor você fica nisso, mais parecendo um leproso se torna, até que chega o momento em que passam a lhe tratar como um.
  • "Não se desespere, Deus tem um plano para sua vida", ele me disse, e eu pensei "Deus, o mesmo que tinha como plano para a vida do filho dele a morte sob tortura?".
  • Coisas para as quais as pessoas realmente desesperadas se voltam: a bebida, as drogas, o crime e a religião.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A nem sempre clara diferença entre ter a cabeça aberta...

...para experiências novas e cabeça aberta a machadadas.

terça-feira, 17 de março de 2009

O caso da excomunhão dos médicos

Estou perdendo alguma coisa ou vocês estão falando da mesma instituição que afirma que uma bolachinha sem sal se torna um pedaço de homem morto quando chega a seu estômago?

Os católicos pedem para não ser julgados erradamente pela excomunhão, uma vez que hoje em dia isso não significa ser queimado vivo*, significa apenas ser chutado pra fora de um clubinho cada dia mais exclusivo. Muito certos estão em dizer isso, os católicos não estão menos em seu direito que certos pastores protestantes americanos que dizem que o terrorismo é o castigo de Deus por causa da boiolice (e do aborto). Não há o menor mistério no comportamento da Igreja: ao entender aborto como assassinato, assassinato é menor que estupro, e os católicos, como todo o resto, querem ver assassinos na cadeia. Quem disser que o problema com isso é que essa regra moral é absoluta, que não muda seja qual for o contexto, por favor me indique o contexto em que o estupro é moralmente aceitável.

Bancar o Diderot-Acácio hoje em dia é só tirar um naco da impopularidade da Igreja em prol de si mesmo. Participar de um pelotão de linchamento, chutar o tigre morto, isso não é o menor sinal de "combatividade", é coisa de bundão, de gente que se guia moralmente pelo que os outros estão pensando. É como ser anti-bush dois dias atrás, não um sinal de contestação, mas de falta de imaginação. Ser anti-clerical em 1700 ou até 1900 e algo era uma atitude, hoje é o mesmo que usar piercing, tatuagens ou ser de esquerda, uma revolta de butique, algo que sua sogra não teria dificulade em entender. Atualmente, ser deslavadamente pró-revolução-burguesa, pró-tudo-o-que-veio-depois-do-século-18 é que é ser contra a "Igreja", seja a igreja keynesiana, anti-globalista, do eco-primitivismo, do pós-modernismo, e até também a Católica Apostólica Romana, a menos influente de todas. Ou algum idiota acha mesmo que o sujeito já está lá, trepando fora do casamento, e não vai por camisinha porque o Papa não gosta?

Só não peçam ao resto do mundo que continue a fazer de conta que ser católico é diferente de ser um evangélico radical americano, que o católico é honesto quando diz querer "debater" alguma questão que envolva os dogmas de sua Igreja. Isto é, que não agirá como alguém que já tem todas as respostas dadas de antemão, vindas dos céus.

*Na época da Inquisição, a igreja não era diretamente responsável pelos autos-de-fé e demais execuções de origem religiosa, ela entregava os condenados aos governos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Um argumento pelo ateísmo que vocês não devem ter ouvido

Esses dias atrás o Mr. X. se perguntou por que existe o conceito de Deus.

Acho que qualquer um que afirme que é universal a idéia judaico-cristã (e islâmica) de um deus único, pessoal e criador do universo sabe que está enganando a si próprio. Existe um muito vago paralelo entre esse Deus e o Brahma hinduísta ou o Logos estóico, mas quem diz acreditar em vários deuses ou num mundo que não foi criado, como os budistas, está sendo sincero. E provando que não há uma idéia intuitiva, natural, um "conhecimento de Deus".

No entanto, se a questão é a onipresença da religião, eu tenho uma teoria. Toda a religião, mesmo aquelas sem nenhum deus, como o Budismo, responde ao problema da morte. O fato implacável de que você sempre tem menos tempo, e nunca mais, de que não pode ter de volta a junventude dos 15 minutos antes de ler este texto. Nossa relação com a morte e a intensidade dessa relação hoje são muito diferentes de quando sa religiões foram fundadas, e essa é uma causa para a decadência da fé.

Os atomistas antigos tinham a mesma resposta que os ateus contemporâneos para a morte: estar morto é apenas não existir. Pense o que você consegue se lembrar da tarde de 29 de abril de 1798, quando você ainda não existia. Pois é exatamente assim que será o seu 31 de agosto de 2251, quando você não existir mais. Essa resposta naturalista é intuitiva e relativamente tranquila, já que não prevê qualquer tipo de sofrimento.

No entanto há um pensamento muito mais popular. Isto Luc Ferry notou, que a resposta das religiões para a morte é a pura e simples negação. E eu digo que isso é o que torna as religiões infantis, tolas e, ao contrário do senso comum, superficiais. Não tem nada que ver com ciência, é com integridade: a filosofia em grande parte tenta o tal "aprender a morrer", saber lidar com o tempo, a morte, a insignificância. A religião, feito um moleque birrento, esperneia e finca o pé em que a morte não existe, você ou vai para o céu, ou para inferno, ou reencarna ou sei lá.

A morte é uma coisa tão horrenda que, evidentemente, sempre foi muito mais popular fazer de conta que ela não está lá, dizer que para apodrecer e ser comido por larvas não é tão sério para nós quanto para um burro ou cachorro.

Muito mais que o Ônibus Liberou-Geral de Dawkins, uma das causas para a religião estar mais fraca talvez seja que a morte têm sido higienizada, levada para os hospitais e coberta com o símbolo de infectante. Não vemos um velório de um conhecido a cada dois meses, a maioria das crianças não morre antes de chegar aos 7 anos, e velho, perto do fim, não é um cara de 50, mas 80 anos. A morte já foi muito mais próxima e constante, e assim também a religião.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

No aniversário de Darwin, uma homenagem ao criacionismo


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os loucos deles, os nossos loucos

Vocês já viram isto aqui?O Ichthys é o símbolo do cristianismo pentecostal, que é o tipo de igreja que vem na cabeça da maioria das pessoas ao ouvirem o termo "fundamentalista cristão". Os pentecostais o escolheram porque era usado como sinal secreto entre os cristãos do século I, perseguidos na Grécia e em Roma. Isto é, o Ichtys é um símbolo da vontade dos crentes de voltarem às raízes do cristianismo, o tempo de perseguições, glossolalia, milagres a baldada e o Apocalipse ali na esquina.

Um século antes da fundação do pentecostalismo no ocidente surgia no Islã sunita um movimento com a mesma ideia: o wahabismo ou salafismo, clamando pela prática da fé islâmica na forma original, o que é basicamente o Islã aplicado hoje em dia na Arábia Saudita. No Egito de 1928 surge a Irmandade Muçulmana, primeira organização do Islã político contemporâneo, também com o propósito de restaurar a fé como nos tempos do Profeta. Eis o símbolo da Irmandade:Sem entrar em qualquer comparação entre as teologias, e esquecendo o berrante constraste que há entre o hippie judeu e o conquistador árabe, pensemos no que quer o crente fundamentalista em cada religião. O fundamentalista cristão busca reconstruir um culto subterrâneo perseguido pelas autoridades do Império Romano, que levaria três séculos para vencer o politeísmo clássico por descrédito, adaptação, exemplo e proselitismo. Já o fundamentalista islâmico tem como modelo outro culto que, pela força da espada, em um século haveria de conquistar até a península Ibérica.

Está clara agora a diferença?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Islã x Cristianismo x Judaísmo

Longe de mim me fingir de especialista em religião, mas creio que posso dizer uma coisa ou duas a respeito do Judaísmo e do Islã sem precisar terminar um curso de teologia, uma madrassa ou universidade rabínica.

O que obviamente une Judaísmo, Islã e o Cristianismo é serem monoteísmos, e isso por si só torna os três tendentes à monomania e beligerância. Um só Deus necessariamente estará a favor de você e contra os descrentes, enquanto que, se há vários deuses, eles podem aparecer em ambos os lados do conflito: basta lembrar a descrição da Guerra de Tróia pela Ilíada, que começa com uma maquinação entre as deusas e o príncipe troiano. Os politeístas antigos chegavam até a importar deuses de outras tradições: o deus indo-persa Mitra era celebrado em Roma. Foi por causa da instransigência dos judeus em aceitar outros deuses que a religião judaica foi proibida pelos governadores helenísticos da Judeia, dando origem à revolta dos macabeus.

O Cristianismo se separa das outras duas tradições, no entanto, ao se tornar antinomista, isto é, recusando o conceito da lei divina, a que foi revelada diretamente por Deus a Moisés. Fazem parte dessa ruptura o famoso "Dai a César o que é de César" (Mateus 22:21) e também "Meu Reino não é deste mundo" (João 18:36). Mesmo a mais feroz afirmação do poder da Igreja medieval, a Unam Sanctam, previa o poder temporal dos reis. É certo isso não impediu que o mundo cristão fizesse inúmeras leis religiosas, algumas brutais, como a pena de morte para quem burlasse a Quaresma. No entanto, por essas leis religiosas serem interpretações humanas e não mandados divinos, elas puderam ser eventualmente abolidas.

Se é para pensarmos na possibilidade de reforma do Islã, seria mais correto o compararmos ao Judaísmo, e não ao Cristianismo. Assim como o Corão e os hadiths, o Velho Testamento é cheio de chamados de guerra e o Judaísmo ortodoxo mantém a ideia de leis ditadas por Deus.

Como afinal surgiram os judeus reformados? O que torna possível um país como Israel ter leis seculares?

Em primeiro lugar, a lei dos judeus era dada pelo Deus de todos os homens, mas se aplicava apenas aos judeus. Assim, era possível a eles conviverem com a ideia de que outros povos vivessem de outras maneiras, mesmo quando em território judeu.

Segundo, mas talvez mais importante, houve o imenso trauma da diáspora. Morando em terras estrangeiras, os judeus tiveram que se conformar em tornar sua religião um assunto privado e pessoal, não mais uma política de estado. Foi assim, por exemplo, que eles aboliram os sacrifícios de animais, mesmo sendo esse ritual absolutamente imprescindível ao judaísmo anterior, motivo central na história de Abraão e inúmeras outras passagens, chegando até mesmo a Jesus, o "cordeiro de Deus" sacrificado por Ele mesmo aos homens. (Notando a incoerência, Maomé, que julgava o Judaísmo e Cristianismo versões deterioradas da fé no Deus certo, restituiu os sacrifícios, como parte da peregrinação a Meca).

Não só os rituais, mas as leis de Deus também tiveram de ser descumpridas. Em terrras estrangeiras, os judeus não podiam mais, como ordena a lei mosaica, executar outro judeu que trabalhasse aos sábados. Ao longo dos séculos, essa contradição tornou possível que certos setores judaicos adotassem menos e menos leis, de forma a se aproximarem do modo de vida dos estrangeiros, e acabou cindindo o Judaísmo entre as várias denominações mais ou menos liberais que existem hoje.

Tão liberais haviam se tornado os judeus que, quando surgiu o sionismo, no século 19, era um movimento secular muito mais preocupado com a nacionalidade judia que com a religião judaica. É por isso que, mesmo sendo Israel um "estado judeu", não é um "estado judaico". Você pode ganhar cidadania israelense sendo um ateu de origem judia, mas se você se converter amanhã isso vai não significar nada para eles. (E não, eu não concordo com essa política, nem com o bloqueio de partidos árabes, mas estou demonstrando como acontece de um estado judeu ser leigo, o que parece cada dia mais difícil nos países islâmicos).

Ainda que haja um teor extremamente árabe nele, o Islã não é a religião de um povo, mas de toda a humanidade. Você e eu somos islâmicos em potencial, e estamos sujeitos às leis de Deus. Se vivemos em um país que não aplica a Sharia, é porque estamos em dar al-Harb, a "casa da guerra", que deve ser trazida a dar al-Islam, a casa da submissão. Pode ser por pregação pacífica, por conquista militar e até por explosão demográfica.

Hoje em dia, o Islã toma de partidos seculares as próprias terras islâmicas e, mesmo quando se instala entre infiéis, encontra pouca resistência a seus propósitos. Portanto está longe de precisar se adaptar, se contradizer e se dividir, como ocorreu ao Judaísmo. O tempo todo os islâmicos ouvem da boca dos próprios infiéis o quanto cultura ocidental é decadente, tola, fútil, superficial, materialista, injusta, capitalista. Com a exceção canhestra do Governo Bush, ninguém no Ocidente está minimamente disposto a propagar suas idéias um dia tidas por universais, a igualdade legal, a liberação feminina, a liberdade de expressão, os direitos humanos, a separação entre Igreja e Estado. Traímos e abandonamos, dessa forma, a todos os reformadores e secularistas do mundo islâmico, que ficam parecendo estar remando feito idiotas no sentido oposto ao da história.

Fique bem claro que não estou chamando os islâmicos de terroristas. O que eu digo é que eles, mesmo os mais pacíficos, mesmos os mais generosos de coração, sentem-se no dever de levar a Sharia ao mundo: lembre-se da constiuição "democrática" do Iraque.

Se você crê no Islã mas não crê na Sharia, você não é um islâmico moderado, é um islâmico afastado. Exatamente como aquele católico que segue o conselho do governo e bota a camisinha, bota pra valer (e não dá chance presse tal dagaivê). Ora, talvez até a maioria dos católicos use contraceptivos, mas seria idiota acreditar que isso mude em qualquer coisa o fato de o Vaticano continuar a dizer que eles vão para o Inferno. Faz um mau trabalho quem estuda os não-praticantes para descobrir o que é o catolicismo, quais são suas qualidades, seus defeitos e suas consequências.

Antes que algum canalha resolva fazer de conta que estou defendendo o genocídio de islâmicos, ou mesmo a proibição de sua fé, deixo minha idéia de, se não solução, ao menos uma atitude ética. Devemos enfrentar o Islã no campo das idéias para não ter de continuar a enfrentá-lo no campo de batalha. Em primeiro lugar, nunca ceder na defesa de nossos valores e na denúncia das imoralidades cometidas em nome do Islã, inclusive contestando o que há de ofensivo na vida do profeta, teologia e textos sagrados - da necessidade dessa resposta, talvez possa surgir uma crise, e então uma reforma. Dois, refutar qualquer tentativa de instituir a Sharia em países democráticos, e não tratar diferenciadamente crimes cometidos em nome do Islã de crimes comuns (ex: assassinatos por honra) - como no exemplo do Judaísmo pós-diáspora, impedidos de praticar sua religião na forma política, talvez os islâmicos tornem também sua fé íntima e pessoal. E, por fim, não defender o Islã, porque esse é o trabalho dos próprios islâmicos, e será por esse trabalho que eles talvez possam criar uma versão moderna de sua fé.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Oito de lado

Adriano Correia trouxe uma versão aprofundada para o Argumento Ontológico, que eu havia rebatido dizendo ser um neoplatonismo meio doido, achar que as idéias têm o mesmo tipo de existência que as beterrabas.

Eu vou combater a coisa por outro lado, então. Diz Adriano Correia:
Ora, porque logicamente (e não empiricamente) jamais poderia ser o caso em que eu tivesse a idéia de um ser perfeito e infinito e que tal não existisse. Por quê? Porque toda idéia que eu possa forjar é finita. Eu jamais poderia forjar a idéia finita de um ser infinito, logo eu não posso ter criado essa idéia.
Bem, o caso é que você não pode imaginar o infinito, mesmo que passe a vida inteira feito um zumbi pensando nos infinitos pontos e drapeados de uma toalha infinita. Tanto é inconcebível o infinito que Deus é imaginado como o próprio universo, um homem barbudo ou uma bola de luz, coisas com bordas bem tangíveis. Mesmo sendo impossível "ver" um infinito, para se chegar a idéia abstrata de "infinito" basta se perguntar até onde vão os números.

Existe uma tribo no Brasil que só sabe contar até 4. Tudo para eles é 1, 2, 3, 4 ou "um montão". "Infinito" é simplesmente o "um montão" de nosso sistema numérico, seu limite máximo. E, mesmo na matemática, infinito é um conceito meio duvidoso.

Tomemos por exemplo o número 2,9 x 10¹¹¹¹, um número maior que qualquer coisa no universo. O número de órbitas dadas em torno de seus respectivos átomos por cada elétron existente, desde que existe o universo, é imensamente menor que 2,9 x 10¹¹¹¹. Nosso sistema numérico pode representar quaisquer grandezas imagináveis, mas isso não significa esses números existam. O número 2,9 x 10¹¹¹¹ é grande demais para significar qualquer coisa, e assim é um conceito vazio, inexistente. "Infinito", portanto, é uma má resposta para a questão de até onde vão os números. Melhor seria dizer "até o maior deles".

Outro caso em que se fala em infinito é "quantas casas decimais tem um terço?". Neste caso, o infinito surge como produto de uma falha de nosso sistema numérico, que causa recursividade. Não é porque os numerais hindo-arábicos não dêem conta de dividir um por três sem entrar em pane que existam "infinitas casas" em 0,3333 - ou seria impossível repartir uma torta em três pedaços.

E existe, por fim, o clássico exemplo de "quantos números primos existem?". O resultado é um conjunto "infinito" que é ainda assim menor que a também "infinita" resposta de "quantos números inteiros existem?".

Infinito é, enfim, uma loucurinha matemática que deveria ser tão desimportante para a filosofia quanto a raiz quadrada de menos um ser "número um imaginário".

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Certa esquerda puritana

O puritanismo, não é segredo, foi um elemento fundador dos Estados Unidos e está vivo e presente em várias congregações protestantes contemporâneas.

O que pouca gente costuma pensar é que ele é tão importante para os Estados Unidos que é formador de idéias e tiques não só da direita, mas também da esquerda do país.

Para quem me conhece há mais tempo, tenho certa experiência com evangélicos linha-dura - fui um deles, e de terceira geração.

Assim sendo, e levando em conta a história dos EUA, fico seguro em dizer que puritanismo significa, antes de mais nada, um senso de exclusão da sociedade comum - simplesmente ser melhor que ela. Ainda que a modéstia cristã proíba dizer isso, no fundo é assim mesmo que funciona, o puritano sente que o mundo em geral está em profundo pecado, enquanto ele é menos pecador, mais correto, mais "by the book". Inclusive chegam a usar a palavra "cristão" como sinônimo de "evangélico", não admitindo que os católicos sequer cristãos sejam. Evangélicos duros ouvem apenas música evangélica, geralmente só fazem amizade com outros evangélicos e adoram uma lenda urbana bizarra para brincarem de judeus e excluírem produtos de seu consumo. Por exemplo, muitos ainda hoje não acham ser "kasher" nada da Procter & Gamble, que foi acusada de satanismo por uma lenda urbana ridícula, surgida a partir da Amway - é claro que, para convencer, a lenda não menciona a origem.

Diferente do católico, Deus, para o puritano, exige perfeição. Existe a idéia de se "estar em pecado", que significa que Deus não o julgará por sua vida em geral, mas pelo momento específico de sua morte - isto é, se você tiver acabado de pecar e ainda não tiver pedido perdão, irá para o inferno. É certo que é mais fácil ao evangélico pedir perdão, porque basta orar mentalmente, mas isso cria uma paranóia característica, porque se alia à idéia do fim do mundo iminente.

Evangélicos duros esperam a volta de Cristo, o arrebatamento e o fim do mundo não para daqui a mil anos, mas daqui a mil milésimos. Isso significa que, se por acaso Cristo voltar dez segundos depois de você ter olhado para a bunda de uma dona, Jesus chorará por ti mas, perdeu, otário: você vai para o inferno. Ainda assim, o fim do mundo é para os salvos um evento positivo, e se torce por ele, não sem um certo schadenfreude pelos pecadores desprezíveis que ficarão na Terra.

Bem, este não é um artigo sobre os puritanos, mas sobre a esquerda americana. Ser um esquerdista porrada é, de muitas formas, similar a ser um evangélico porrada.

A idéia de um mundo em pecado do qual se conhece a redenção, bastando proselitismo suficiente, creio que nem precisa de maiores explicações.

E nem tampouco o Aquecimento Global Segundo São João estar sempre lhe espiando da esquina. O mundo é antropocêntrico e Deus nos castiga por nossos pecados: se há Dilúvio Global, é porque os pecadores fizeram por merecer.

Aliás, do dilúvio e Apocalipse também herda-se a idéia de que o mundo está tão em pecado que, por sua imperfeição, merece ser destruído. A origem da opinião da catastrófica da esquerda sobre o Ocidente torna-se cristalina aqui.

O pecado original também tem sua versão progressista na culpa branca-primeiro-mundista-ocidental. Se você por acaso nascer nos grupos privilegiados, já nasce devendo e com a obrigação de se envergonhar eternamente.

Mesmo a moral sexual puritana às vezes encontra sua versão de esquerda, principalmente em certas feministas e em grupos exóticos da contra-cultura.

Algumas curtas: boicotar produtos e artistas "do demônio"; isolar-se entre fiéis; ser intolerante com a sociedade normal... Está fácil demais, não?

Outras manias tem origem evangélica direta e inadulterada. Além do precedente pré-Reforma da quaresma e das ordens monásticas, o veganismo teve um grande impulso com a Igreja Adventista, cujos fiéis inventaram o sucrilhos e foram pioneiros na proteína texturizada de soja. De minha experiência pessoal, notei que os os adventistas muitas vezes põem na frente o proselitismo vegetariano antes de Jesus ou a profetiza Ellen G. White. A razão teológica para isso é que fomos "originalmente vegetarianos" no Jardim do Éden, quando leão comia alface. Daí então concluírem que a dieta vegetariana é a mais natural, e que comer carne é ofender ao corpo, o "templo do espírito".

O pacifismo é cristão genérico de nascença, mas sempre houve grupos religiosos particularmente pacifistas, a ponto de proibir seus membros de irem à guerra.

O separatismo tecnófobo dos retiros e das communidades hippie também teve nos religiosos seus pioneiros, como provam os Amish e, particularmente curiosos, os shakers. Quando aparecem uns lunáticos pregando a extinção da espécie humana, sempre penso nos shakers: eles acabaram extintos porque pregavam o celibato absoluto, mesmo para casados. Assim como os ecologistas profundos, eram era uma seita lutando pela extinção da humanidade.

Um sujeito que defenda hoje ter duas namoradas, ser consumista, fumar, ficar muito bêbado, ver fotos degradantes de mulheres e filmes de guerra patrioteiros, comer carne, falar mal do Islã, ter um carrão e caçar bichos será invariavelmente tachado de porco chauvinista bigota conservador, ainda que seja um baita hedonista, bem pouco cristão.

O que eu me pergunto é: alguém que nasça hoje em dia com o tipo de personalidade que fez o puritano em eras passadas, mas seja lido, do tipo mais intelectual, onde essa pessoa se sentirá mais à vontade? Na Assembléia de Deus ou no congresso do PETA?
 
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