
Longe de mim me fingir de especialista em religião, mas creio que posso dizer uma coisa ou duas a respeito do Judaísmo e do Islã sem precisar terminar um curso de teologia, uma madrassa ou universidade rabínica.
O que obviamente une Judaísmo, Islã e o Cristianismo é serem monoteísmos, e isso por si só torna os três tendentes à monomania e beligerância. Um só Deus necessariamente estará a favor de você e contra os descrentes, enquanto que, se há vários deuses, eles podem aparecer em ambos os lados do conflito: basta lembrar a descrição da Guerra de Tróia pela
Ilíada, que começa com uma maquinação entre as deusas e o príncipe troiano. Os politeístas antigos chegavam até a importar deuses de outras tradições: o deus indo-persa
Mitra era celebrado em Roma. Foi por causa da instransigência dos judeus em aceitar outros deuses que a religião judaica foi proibida pelos governadores helenísticos da Judeia, dando origem à
revolta dos macabeus.
O Cristianismo se separa das outras duas tradições, no entanto, ao se tornar
antinomista, isto é, recusando o conceito da lei divina, a que foi revelada diretamente por Deus a Moisés. Fazem parte dessa ruptura o famoso "Dai a César o que é de César" (
Mateus 22:21) e também "Meu Reino não é deste mundo" (
João 18:36). Mesmo a mais feroz afirmação do poder da Igreja medieval, a
Unam Sanctam, previa o poder temporal dos reis. É certo isso não impediu que o mundo cristão fizesse inúmeras leis religiosas, algumas brutais, como a pena de morte para quem burlasse a Quaresma. No entanto, por essas leis religiosas serem interpretações humanas e não mandados divinos, elas puderam ser eventualmente abolidas.
Se é para pensarmos na possibilidade de reforma do Islã, seria mais correto o compararmos ao Judaísmo, e não ao Cristianismo. Assim como o Corão e os hadiths, o Velho Testamento é cheio de
chamados de guerra e o Judaísmo ortodoxo mantém a ideia de
leis ditadas por Deus.
Como afinal surgiram os judeus reformados? O que torna possível um país como Israel ter leis seculares?
Em primeiro lugar, a lei dos judeus era dada pelo Deus de todos os homens, mas se aplicava apenas aos judeus. Assim, era possível a eles conviverem com a ideia de que outros povos vivessem de outras maneiras, mesmo quando em território judeu.
Segundo, mas talvez mais importante, houve o imenso trauma da
diáspora. Morando em terras estrangeiras, os judeus tiveram que se conformar em tornar sua religião um assunto privado e pessoal, não mais uma política de estado. Foi assim, por exemplo, que eles aboliram os sacrifícios de animais, mesmo sendo esse ritual absolutamente imprescindível ao judaísmo anterior, motivo central na história de Abraão e inúmeras outras passagens, chegando até mesmo a Jesus, o "cordeiro de Deus" sacrificado por Ele mesmo aos homens. (Notando a incoerência, Maomé, que julgava o Judaísmo e Cristianismo versões deterioradas da fé no Deus certo, restituiu os sacrifícios, como parte da
peregrinação a Meca).
Não só os rituais, mas as leis de Deus também tiveram de ser descumpridas. Em terrras estrangeiras, os judeus não podiam mais, como ordena a lei mosaica, executar outro judeu que trabalhasse aos sábados. Ao longo dos séculos, essa contradição tornou possível que certos setores judaicos adotassem menos e menos leis, de forma a se aproximarem do modo de vida dos estrangeiros, e acabou cindindo o Judaísmo entre as várias denominações mais ou menos liberais que existem hoje.
Tão liberais haviam se tornado os judeus que, quando surgiu o sionismo, no século 19, era um movimento secular muito mais preocupado com a nacionalidade judia que com a religião judaica. É por isso que, mesmo sendo Israel um "estado judeu", não é um "estado judaico". Você pode ganhar cidadania israelense sendo um ateu de origem judia, mas se você se converter amanhã isso vai não significar nada para eles. (E não, eu não concordo com essa política, nem com o bloqueio de partidos árabes, mas estou demonstrando como acontece de um estado judeu ser leigo, o que parece cada dia mais difícil nos países islâmicos).
Ainda que haja um teor extremamente árabe nele, o Islã não é a religião de um povo, mas de toda a humanidade. Você e eu somos islâmicos em potencial, e estamos sujeitos às leis de Deus. Se vivemos em um país que não aplica a Sharia, é porque estamos em
dar al-Harb, a "casa da guerra", que deve ser trazida a dar al-Islam, a casa da submissão. Pode ser por pregação pacífica, por conquista militar e até por
explosão demográfica.
Hoje em dia, o Islã toma de partidos seculares as próprias terras islâmicas e, mesmo quando se instala entre infiéis, encontra
pouca resistência a seus propósitos. Portanto está longe de precisar se adaptar, se contradizer e se dividir, como ocorreu ao Judaísmo. O tempo todo os islâmicos ouvem da boca dos próprios infiéis o quanto cultura ocidental é decadente, tola, fútil, superficial, materialista, injusta, capitalista. Com a exceção canhestra do Governo Bush, ninguém no Ocidente está minimamente disposto a propagar suas idéias um dia tidas por universais, a igualdade legal, a liberação feminina, a liberdade de expressão, os direitos humanos, a separação entre Igreja e Estado. Traímos e abandonamos, dessa forma, a todos os reformadores e secularistas do mundo islâmico, que ficam parecendo estar remando feito idiotas no sentido oposto ao da história.
Fique bem claro que não estou chamando os islâmicos de terroristas. O que eu digo é que eles, mesmo os mais pacíficos, mesmos os mais generosos de coração, sentem-se no dever de levar a Sharia ao mundo: lembre-se da
constiuição "democrática" do Iraque.
Se você crê no Islã mas não crê na Sharia, você não é um islâmico moderado, é um islâmico afastado. Exatamente como aquele católico que segue o conselho do governo e bota a camisinha, bota pra valer (e não dá chance presse tal dagaivê). Ora, talvez até a maioria dos católicos use contraceptivos, mas seria idiota acreditar que isso mude em qualquer coisa o fato de o Vaticano continuar a dizer que eles vão para o Inferno. Faz um mau trabalho quem estuda os não-praticantes para descobrir o que é o catolicismo, quais são suas qualidades, seus defeitos e suas consequências.
Antes que algum canalha resolva fazer de conta que estou defendendo o genocídio de islâmicos, ou mesmo a proibição de sua fé, deixo minha idéia de, se não solução, ao menos uma atitude ética. Devemos enfrentar o Islã no campo das idéias para não ter de continuar a enfrentá-lo no campo de batalha. Em primeiro lugar, nunca ceder na defesa de nossos valores e na denúncia das imoralidades cometidas em nome do Islã, inclusive contestando o que há de ofensivo na vida do profeta, teologia e textos sagrados - da necessidade dessa resposta, talvez possa surgir uma crise, e então uma reforma. Dois, refutar qualquer tentativa de instituir a Sharia em países democráticos, e não tratar diferenciadamente crimes cometidos em nome do Islã de crimes comuns (ex: assassinatos por honra) - como no exemplo do Judaísmo pós-diáspora, impedidos de praticar sua religião na forma política, talvez os islâmicos tornem também sua fé íntima e pessoal. E, por fim, não defender o Islã, porque esse é o trabalho dos próprios islâmicos, e será por esse trabalho que eles talvez possam criar uma versão moderna de sua fé.