Está ficando clara aqui a divisão entre conservadores e libertários, não?Vamos avaliar por exemplo um argumento conservador conhecido, aquele contra o casamento gay.
Conservadores são a favor da família nuclear não-estendida como o melhor ambiente para criar filhos. De fato, é bom ter dois ao invés de uma e as tias, é bom ser criado com o pai - mas não é sempre o melhor, porque há pais abusivos, caso em que um divórcio seria recomendável. Mas, via de regra, posso concordar com os conservadores, que os casais saudáveis, não-violentos, deveriam se sacrificar um pouco e aceitar, em prol de seus filhos, que o amor romântico não é eterno - os meus pais fizeram isso, quase todos em sua geração fizeram, ao menos por um tempo. Então concordamos eu e os conservadores: a família nuclear é um bem.
A partir daí eles se declaram contra o casamento gay. Por que? Porque o casamento gay é um concorrente à família nuclear, e de existir faz com que ela perca sua autoridade enquanto monopólio. A família nuclear deixa de ser a única possível aos olhos do estado e (ao menos assim espera o conservador) da sociedade.
Um gay trazer seu parceiro ao hospital e fazer com que ele receba de herança seus bens é um direito individual baseado em sua própria vontade, do que esse indivíduo deseja fazer de si, suas relações e sua propriedade. Porém, em nome do desejo por ambiente cultural saudável, isto é, em nome da coletividade, os conservadores então se tornam perfeitamente capazes de sacrificar o indivíduo. Assim, é o conservadorismo outro tipo de coletivismo - apenas que os conservadores almejam um tipo de uniformidade diferente dos socialistas. Enquanto os socialistas parecem querer o mundo das Cohabs infinitas - Le Corbusier chegou a desenhar isso -, os conservadores querem o subúrbio americano infinito, o nirvana da propaganda de margarina. Em ambas utopias, não há espaço para manchas comportamentais.
Entendo o socialismo como uma volta em U no liberalismo, uma guinada em retorno ao controle absolutista - apenas trocando o benefactor rei por burocratas. De certa forma, há apenas dois partidos políticos na história moderna, os que exergam um bem quando surgem mais opções e aqueles que acreditam que podem controlar o futuro. O partido da liberdade versus o da segurança, otimismo e pessimismo, um que aceita a imperfeição da vida, outro que acredita estar o mundo em profundo pecado, um que acredita que o futuro será melhor, outro que enxerga o Apocalipse ali na esquina.
Afinal de contas, entre se apavorar com pornografia na internet ou transgênicos, os Últimos Dias do Ocidente ou o Aquecimento Global Catastrófico, conservadores e esquerdistas tem alguma em coisa em comum, não?
Vamos lá, sejam bons cristãos, abracem seus irmãos.


14 comentários:
Sua argumentação será perfeita desde que:
1) Todo Conservador seja contra o casamento gay;
2) Todo Conservador seja Cristão.
Como não sou nem uma coisa nem outra, não sou Conservador?Aguardo então um típico-conservador-caricato, com quem é sempre mais fácil discutir.
E não há coletivismo melhor do que este, o de pensar enquanto seguidor desta ou daquela corrente de pensamento. Como vem dizendo Magnoli nos debates quanto às políticas raciais, o cara abstrai-se totalmente de sua individualidade e tudo o que pensa é enquanto "liberal" ou enquanto "conservador" ( no caso dos debates de Magnoli, alguém disse ser impossível contraargumentar Magnoli pois não há doutores e acadêmicos negros. Ou seja, alguém que pensasse os problemas raciais "enquanto negro" ).
Para finalizar de vez, cito aqui Marcelo Nova: Ser contra gay? Eu lá tenho vocação para ser fiscal de cu?
A questão não tem nada que ver com "enquanto conservador" ou "enquanto liberal" e se você vai defender o pacote inteiro ou uma questão ou outra. A questão é de por quais princípios você entende o que é justo. Se você tem um ideal que parte do indivíduo ou acredita na simples defesa do que é melhor para a maioria, e então é capaz de sugerir que o estado deva sacrificar o direito de algumas pessoas em nome de um "ambiente" mais adequado a essa coletividade, uma espécie de engenharia social de manutenção. Se você acredita nisso, é um socialista do avesso, não é um liberal. Por falta de outra palavra, digo conservador, pouco importa se você compra o pacote todo. Você pode me chamar de libertário, mas não vou virar pacifista para me adequar ao rótulo. É um ponto fraco, a meu ver.
Um gay trazer seu parceiro ao hospital e fazer com que ele receba de herança seus bens é um direito individual baseado em sua própria vontade, do que esse indivíduo deseja fazer de si, suas relações e sua propriedade.
chest- um gay pode fazer isso sem casar.
Porém, em nome do desejo por ambiente cultural saudável, isto é, em nome da coletividade, os conservadores então se tornam perfeitamente capazes de sacrificar o indivíduo.
chest- negativo. Argumento falacioso. São os gays (nesse caso) que querem privilégios como coletividade em detrimento de valores tradicionais.
Gays querendo casar?
Que caretice!
Essa do fiscal de cu é boa, lembra uma outra.
Certo dia um motorista de taxi ouvia as lamentações do passageiro sobrea recem descoberta que seu filho era gay, quando resolveu "ajudar".
-Olha meu senhor, vou contar uma historieta que talvez faça com que o senhor compreenda a situação de seu filho.
- ah é, como assim?
-bem, certa noite estava muito apertado, uma dor de barriga danada, e todos restauranes já fechados, quando achei um posto de gasolina e pedi a chave do banheiro ao frentista, sai correndo, mas ao tentar abrir a porta, me distraí e me borrei todo...
-espere aí, eu conto um drama existencial para o senhor e o senhor me vem com essa conversa diarréica? Que afinal tem isso a ver com meu problema?
- pois então, se a gente as vezes não consegue nem controlar o próprio cu, como é que vai conseguir controlar o cu dos outros?
0% argumento, 100% trollzice, atravessou a linha amarela, pisou no quiabo. No-no.
Bem, eu sou contra o casamento gay. Até era a favor antes, mas, acompanhando aqui o desenrolar dos eventos da janelinha (EUA), dei-me conta que os gays (e a coalizão esquerdista que os apóia) não querem tanto casar quanto estragar o prazer dos que ainda acreditam em alguma coisa chamada "casamento tradicional". Ou seja, acho que pouco tem a ver com "direitos iguais" (gays afinal jamais foram proibidos de casar, desde que com o sexo oposto) e sim com a destruição de um conceito, ampliando-o até este não significar mais nada.
Não que eu acredite muito no casamento, hein? Mas deixem em paz aqueles que acreditam.
Não é questão de um indivíduo gay querer casar, eles sempre casasram, fizeram suas cerimônias de um modo ou de outro, como qualquer casal normal.
Gays "coletivos", em grupo, por ódio e inveja, resolveram avacalhar a instituição do casamento na vida civil e na igreja ( e olha que nunca casei na igreja)católica.
Nada nem ninguem no Brasil por uma só vez impediu um gay de vestir véu e grinalda.
Acho que a exigência é que sejam reconhecidos com os mesmos direitos civis de cônjuges - no caso de acompanhantes em hospitais por exemplo, onde hoje não são. Se a grita é para obrigar os padres e pastores a celebrar casamentos gays, aí sou contra, é um atentado á liberdade de religião, e a igreja é um ente privado.
Mas, veja, você tenta desconstruir um exemplo em circunstâncias particulares sem debater o mérito da questão mais ampla, se conservadores são ou não capazes de, em nome de coisas que pertencem "à coletividade", o tal "bom ambiente", sacrificar indivíduos - principalmente indivíduos em minoria, desviantes. E eu não tenho a menor dúvida que o modo de pensar conservador parte disso, do que é o bem "para a maioria", não de um princípio sólido de direitos individuais - ou teriam de se admitir a favor da liberação das drogas, mesmo se pessoalmente contra o consumo.
Acompanhante de hospital nem precisa ser casado, que problema fictício é esse?
"Casamento" é a união civil ou religiosa de um homem e uma mulher.
Porque os gays de passeata não se contentam com união civil estável, por exemplo? Porque eles querem:
- c a s a m e n t o ?
É uma falsa questão. A questão é: dois indivíduos do mesmo sexo são aptos a criar alguém?
Claro que não. Freud morreu mas nem tanto.
Devo reconhecer que esse coletivismo também está presente no movimento homossexual, mas acho que aqui no Brasil a idéia de individualismo e democracia ainda está em um nível embrionário. Eu por exemplo acho válido a pessoa , o indivíduo ser contra o homossexual, seja o motivo que for, ninguém é obrigado a aturar ninguém, da mesma maneira que eu tenho o direito individual de odiar indistintamente qualquer evangélico, por exemplo. O que é muito diferente de um GRUPO, em nome do coletivismo, querer se sobreessair sobre os demais. E antes que um incauto tenha lido o que o Chesterton disse e tome como verdade: Não é irônico acusar os gays de quererem direitos privilegiados tomando como argumento "valores tradicionais"? Não leu o texto? Não, gays não têm liberdade de doar seus bens para o parceiro se acontecer algo, dependemos da boa vontade de juízes esclarecidos. Não, os gays não querem casamento religioso. só civil.
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