quarta-feira, 28 de outubro de 2009

The thin red line

Está ficando clara aqui a divisão entre conservadores e libertários, não?
Vamos avaliar por exemplo um argumento conservador conhecido, aquele contra o casamento gay.

Conservadores são a favor da família nuclear não-estendida como o melhor ambiente para criar filhos. De fato, é bom ter dois ao invés de uma e as tias, é bom ser criado com o pai - mas não é sempre o melhor, porque há pais abusivos, caso em que um divórcio seria recomendável. Mas, via de regra, posso concordar com os conservadores, que os casais saudáveis, não-violentos, deveriam se sacrificar um pouco e aceitar, em prol de seus filhos, que o amor romântico não é eterno - os meus pais fizeram isso, quase todos em sua geração fizeram, ao menos por um tempo. Então concordamos eu e os conservadores: a família nuclear é um bem.

A partir daí eles se declaram contra o casamento gay. Por que? Porque o casamento gay é um concorrente à família nuclear, e de existir faz com que ela perca sua autoridade enquanto monopólio. A família nuclear deixa de ser a única possível aos olhos do estado e (ao menos assim espera o conservador) da sociedade.

Um gay trazer seu parceiro ao hospital e fazer com que ele receba de herança seus bens é um direito individual baseado em sua própria vontade, do que esse indivíduo deseja fazer de si, suas relações e sua propriedade. Porém, em nome do desejo por ambiente cultural saudável, isto é, em nome da coletividade, os conservadores então se tornam perfeitamente capazes de sacrificar o indivíduo. Assim, é o conservadorismo outro tipo de coletivismo - apenas que os conservadores almejam um tipo de uniformidade diferente dos socialistas. Enquanto os socialistas parecem querer o mundo das Cohabs infinitas - Le Corbusier chegou a desenhar isso -, os conservadores querem o subúrbio americano infinito, o nirvana da propaganda de margarina. Em ambas utopias, não há espaço para manchas comportamentais.

Entendo o socialismo como uma volta em U no liberalismo, uma guinada em retorno ao controle absolutista - apenas trocando o benefactor rei por burocratas. De certa forma, há apenas dois partidos políticos na história moderna, os que exergam um bem quando surgem mais opções e aqueles que acreditam que podem controlar o futuro. O partido da liberdade versus o da segurança, otimismo e pessimismo, um que aceita a imperfeição da vida, outro que acredita estar o mundo em profundo pecado, um que acredita que o futuro será melhor, outro que enxerga o Apocalipse ali na esquina.

Afinal de contas, entre se apavorar com pornografia na internet ou transgênicos, os Últimos Dias do Ocidente ou o Aquecimento Global Catastrófico, conservadores e esquerdistas tem alguma em coisa em comum, não?

Vamos lá, sejam bons cristãos, abracem seus irmãos.

14 comentários:

Da C.I.A. disse...

Sua argumentação será perfeita desde que:
1) Todo Conservador seja contra o casamento gay;
2) Todo Conservador seja Cristão.

Como não sou nem uma coisa nem outra, não sou Conservador?Aguardo então um típico-conservador-caricato, com quem é sempre mais fácil discutir.
E não há coletivismo melhor do que este, o de pensar enquanto seguidor desta ou daquela corrente de pensamento. Como vem dizendo Magnoli nos debates quanto às políticas raciais, o cara abstrai-se totalmente de sua individualidade e tudo o que pensa é enquanto "liberal" ou enquanto "conservador" ( no caso dos debates de Magnoli, alguém disse ser impossível contraargumentar Magnoli pois não há doutores e acadêmicos negros. Ou seja, alguém que pensasse os problemas raciais "enquanto negro" ).

Para finalizar de vez, cito aqui Marcelo Nova: Ser contra gay? Eu lá tenho vocação para ser fiscal de cu?

Fabio Marton disse...

A questão não tem nada que ver com "enquanto conservador" ou "enquanto liberal" e se você vai defender o pacote inteiro ou uma questão ou outra. A questão é de por quais princípios você entende o que é justo. Se você tem um ideal que parte do indivíduo ou acredita na simples defesa do que é melhor para a maioria, e então é capaz de sugerir que o estado deva sacrificar o direito de algumas pessoas em nome de um "ambiente" mais adequado a essa coletividade, uma espécie de engenharia social de manutenção. Se você acredita nisso, é um socialista do avesso, não é um liberal. Por falta de outra palavra, digo conservador, pouco importa se você compra o pacote todo. Você pode me chamar de libertário, mas não vou virar pacifista para me adequar ao rótulo. É um ponto fraco, a meu ver.

Chesterton disse...

Um gay trazer seu parceiro ao hospital e fazer com que ele receba de herança seus bens é um direito individual baseado em sua própria vontade, do que esse indivíduo deseja fazer de si, suas relações e sua propriedade.

chest- um gay pode fazer isso sem casar.

Chesterton disse...

Porém, em nome do desejo por ambiente cultural saudável, isto é, em nome da coletividade, os conservadores então se tornam perfeitamente capazes de sacrificar o indivíduo.

chest- negativo. Argumento falacioso. São os gays (nesse caso) que querem privilégios como coletividade em detrimento de valores tradicionais.

Adaílton Persegonha disse...

Gays querendo casar?

Que caretice!

Chesterton disse...

Essa do fiscal de cu é boa, lembra uma outra.
Certo dia um motorista de taxi ouvia as lamentações do passageiro sobrea recem descoberta que seu filho era gay, quando resolveu "ajudar".
-Olha meu senhor, vou contar uma historieta que talvez faça com que o senhor compreenda a situação de seu filho.
- ah é, como assim?
-bem, certa noite estava muito apertado, uma dor de barriga danada, e todos restauranes já fechados, quando achei um posto de gasolina e pedi a chave do banheiro ao frentista, sai correndo, mas ao tentar abrir a porta, me distraí e me borrei todo...
-espere aí, eu conto um drama existencial para o senhor e o senhor me vem com essa conversa diarréica? Que afinal tem isso a ver com meu problema?
- pois então, se a gente as vezes não consegue nem controlar o próprio cu, como é que vai conseguir controlar o cu dos outros?

Anônimo disse...
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Fabio Marton disse...

0% argumento, 100% trollzice, atravessou a linha amarela, pisou no quiabo. No-no.

Mr X disse...

Bem, eu sou contra o casamento gay. Até era a favor antes, mas, acompanhando aqui o desenrolar dos eventos da janelinha (EUA), dei-me conta que os gays (e a coalizão esquerdista que os apóia) não querem tanto casar quanto estragar o prazer dos que ainda acreditam em alguma coisa chamada "casamento tradicional". Ou seja, acho que pouco tem a ver com "direitos iguais" (gays afinal jamais foram proibidos de casar, desde que com o sexo oposto) e sim com a destruição de um conceito, ampliando-o até este não significar mais nada.

Não que eu acredite muito no casamento, hein? Mas deixem em paz aqueles que acreditam.

Chesterton disse...

Não é questão de um indivíduo gay querer casar, eles sempre casasram, fizeram suas cerimônias de um modo ou de outro, como qualquer casal normal.
Gays "coletivos", em grupo, por ódio e inveja, resolveram avacalhar a instituição do casamento na vida civil e na igreja ( e olha que nunca casei na igreja)católica.

Nada nem ninguem no Brasil por uma só vez impediu um gay de vestir véu e grinalda.

Fabio Marton disse...

Acho que a exigência é que sejam reconhecidos com os mesmos direitos civis de cônjuges - no caso de acompanhantes em hospitais por exemplo, onde hoje não são. Se a grita é para obrigar os padres e pastores a celebrar casamentos gays, aí sou contra, é um atentado á liberdade de religião, e a igreja é um ente privado.

Mas, veja, você tenta desconstruir um exemplo em circunstâncias particulares sem debater o mérito da questão mais ampla, se conservadores são ou não capazes de, em nome de coisas que pertencem "à coletividade", o tal "bom ambiente", sacrificar indivíduos - principalmente indivíduos em minoria, desviantes. E eu não tenho a menor dúvida que o modo de pensar conservador parte disso, do que é o bem "para a maioria", não de um princípio sólido de direitos individuais - ou teriam de se admitir a favor da liberação das drogas, mesmo se pessoalmente contra o consumo.

Chesterton disse...

Acompanhante de hospital nem precisa ser casado, que problema fictício é esse?

"Casamento" é a união civil ou religiosa de um homem e uma mulher.
Porque os gays de passeata não se contentam com união civil estável, por exemplo? Porque eles querem:
- c a s a m e n t o ?

Frederico disse...

É uma falsa questão. A questão é: dois indivíduos do mesmo sexo são aptos a criar alguém?
Claro que não. Freud morreu mas nem tanto.

Thiago BD disse...

Devo reconhecer que esse coletivismo também está presente no movimento homossexual, mas acho que aqui no Brasil a idéia de individualismo e democracia ainda está em um nível embrionário. Eu por exemplo acho válido a pessoa , o indivíduo ser contra o homossexual, seja o motivo que for, ninguém é obrigado a aturar ninguém, da mesma maneira que eu tenho o direito individual de odiar indistintamente qualquer evangélico, por exemplo. O que é muito diferente de um GRUPO, em nome do coletivismo, querer se sobreessair sobre os demais. E antes que um incauto tenha lido o que o Chesterton disse e tome como verdade: Não é irônico acusar os gays de quererem direitos privilegiados tomando como argumento "valores tradicionais"? Não leu o texto? Não, gays não têm liberdade de doar seus bens para o parceiro se acontecer algo, dependemos da boa vontade de juízes esclarecidos. Não, os gays não querem casamento religioso. só civil.

 
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