Quem leu Persépolis, os quadrinhos autobiográficos (e depois animação) de Marjane Satrapi, talvez esteja um tanto mais iluminado neste instante a respeito de quem são os iranianos nos protestos, tão ocidentais que muitas vezes parecem. Nascida em 1969 numa família que encampava em tudo a modernização da sociedade persa, teve um tio com cavanhaque de Trotsky que apoiou a revolução e por ela foi executado. Em 80 e poucos, quando era fã do Iron Maiden, foi mandada para fazer o segundo grau na Áustria, vestiu-se de gótica, mas não aguentou o choque cultural de ter de tropeçar numa sala de outras adolescentes fumando baseado em roupa de baixo, com seus namorados. Quando deixada pelo namorado europeu, surtou, dormiu na rua no inverno, quase morreu. Voltou ao Irã, terminou seus estudos por lá, casou e se descasou com um rapaz sensível local. Instalou-se definitivamente na Europa, agora na França, aos 20 e tantos anos.Pode parecer supresa que mesmo os iranianos opositores aos regime não fiquem à vontade com a liberação dos costumes do Ocidente, e não a apoiem após exame racional. Acaba se mostrando um motivo de orgulho para Marjane a força da família e a discrição possível numa sociedade como a dela, mais tradicional - não da forma totalitária como quer o regime islâmico, mas apenas pela forma habilitada pelos costumes, não pela força. Como é comum em opositores iranianos - persas, como eles preferem ser chamados - Marjane prefere relacionar o que ela gosta em seu país à cultura do que à religião. Ainda assim, ela não rejeita o Islã, mas chama de "verdadeiros religiosos" os imãs mais generosos, mais complacentes - o que, talvez, pelo que aprendi com Ibn Warraq e Ali Sina, seja incoerente com a teologia islâmica, mas deixemos isso para outra hora.
Exceto pelo papel ativo da mulher, postura em defesa da qual ela é bastante incisiva, temos uma figura curiosamente conservadora, quase coerente com a posição dos iranianos. Comentada por David Hume do Secular Right, a World Values Survey de 2005 comparou iranianos de todas as classes sociais. Ao contrário do que diz a lenda, as diferenças entre classes sociais são mínimas: todos são machistas e homófobos, todos dão importância enorme à religião, mas assim mesmo e a maioria rejeita o regime islâmico.
É claro que deve haver uma distância de gerações entre Marjane, que tem 40, e as moças nos protestos hoje em dia. Considerando-se que ela foi uma radical em sua época, e que várias vezes ela aparece em conflito com as moças de sua geração, é de se supor que, em média, uma moça de oposição contemporânea seja parecida com ela. Enfim, não há uma identidde automática entre essas Princesas da Pérsia tão maquiadas com as moças do design gráfico da Anhembi-Morumbi. Se a revolução acontecer, o que sai de lá é um país certamente mais amigo do Ocidente, talvez o lugar destinado a reformar o Islã, mas não um país ocidental. Quem sabe, melhor assim para eles.


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