sexta-feira, 26 de junho de 2009

Insólito profeta

Nenhuma pessoa levou tão às últimas consequências o fato de ser dona do próprio corpo quanto Michael Jackson. Ele encarnou até o paroxismo de tornar-se um mártir a revolta contra a natureza tornada possível pela tecnologia, a não-aceitação em ser aquilo para o que se nasceu, ao que seus genes o condenaram. Não importa suas decisões serem motivadas por um tipo de insanidade, ideias perversas a respeito de raça, uma auto-imagem distorcida, e um gosto discutível, Michael Jackson tornou-se o ser que ele quis ser, e nisso foi pioneiro.

(É verdade que muitos outros modificam-se até se tornarem socialmente inadequados, mas vamos tomar Michael como um exemplo visível e que não tinha como intenção se alienar ou fazer disso o centro de sua expressão).

Já estamos no dia em que é questão importante o quanto podemos nos modificar, não apenas, mas também fisicamente. Pode o corpo humano ser considerado uma obra em aberto ou isso é uma espécie de sacrilégio, de desumanização? Existe algo de antiético num cirurgião plástico transformar alguém voluntariamente em algo que outros entendam por uma aberração, um monstro? Seria isso uma perversão social ou uma manifestação de individualidade, a vitória sobre a natureza cruel, mesquinha, flácida, enrugada e cheia de brotoejas?

Num ponto bem mais trivial, penso nas senhoras da geração Botox. Assim como elas não conheceram o horror das plásticas de olho-de-gato dos anos 70 e 80, espero que as senhoras de minha geração possam dispensar a toxina. Seja como for, acho de mau gosto falar da plástica alheia - é como dizer "velha, aceite morrer": talvez até uma verdade, mas uma verdade grotesca, vulgar, escatológica.

Assim como as mulheres desde sempre trapaceiam a acintosa evolução, que as quer mortas aos 45 anos, a tecnologia será a ferramenta para tornar-se outra coisa que não o programado por essa tirania genética, causada do acaso de seus pais serem feios entre feios, loucos entre loucos, doentes entre doentes, e, finalmente, mortos entre mortos.

A humanidade superou os predadores ao criar as cidades, há 7 mil anos. Superou os germes ao criar a medicina moderna, as vacinas há 200 anos, a higiene há 120, os antibióticos há 60. A vitória sobre a genética e a evolução será uma revolução a fazer a passagem para Modernidade parecer inconsequente. Sem dúvida essa mudança terá seus monstros, personagens tão perturbadores quanto o próprio Michael Jackson, que, se não merece espaço entre os maiores artistas, certamente está entre as maiores biografias da História.

7 comentários:

fernando disse...

Sendo possível, quero ser tudo que a ciência me permita ser.
Resistência e forças além da humana, imunidade a doenças e tudo que for possível comprar estaria eu na fila.
Compraria guelras se fosse possível.

Chesteron disse...

Peraí, isso é um evidente exagero.

Fabio Marton disse...

OU... ele simplesmente tinha vitiligo mesmo. :)

João Paulo Rodrigues disse...

Roberta Close foi muito mais radical: foi à raiz mesmo dos seus problemas e extirpou-a. Zapt!

no disse...

Já existe um filosofia montada em torno desta idéia de transformar o corpo, conhecida como transhumanismo.
Vou te deixar um link de um cara chamado Kurzweil, ele trata deste tema com muita propriedade:
http://www.kurzweilai.net/meme/frame.html?m=5
a página em questão fala de imortalidade, mas se der uma procurada pelo site vai achar material sobre transhumanismo.
um abraço, e parabéns pelos ótimos textos.

Fabio Marton disse...

Ah, eu conheço, no. Se você tiver paciência qualquer dia, o livro de sci-fi ali ao lado, tão cheio de cimento e andaimes que está, é exatamente sobre isso.

E obrigado pelo link e pelo "ótimos".

Cris Carriconde disse...

Gostei do teu ponto de vista embora também ache que ele mereça sim, estar entre os grandes artistas.
Há uns anos um dos Titãs falou uma coisa que gostei mas infelizmente não lembro qual deles. Dizia que por um outro lado não deixava se ser uma espécie de racismo como se não fosse a ele permitido " usar a nossa cor"
Eu que fiz um longo tratamento para vitiligo com 4 anos e fiquei sem sequelas, sei o quanto é complicado e acredito que tudo começou por aí.

Com certeza Michael foi um começo um tanto equivocado de algumas coisas que podem ser boas.
O povo chia pra liberar células tronco. Estamos e somos ainda muito atrasados em todos sentidos.
Até que doa o calo.

 
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