O que começou a acontecer no LLL está me dando certo nojinho. Não só ele desembestou a falar "branquinho" com aquela - dê um tapinha na perna e diga, êee, Diney! - ironia ácida, mais azedinha que capirinha de fluído de bateria sem açúcar - êee, Diney! - como está com um séquito de madalenas fazendo fila no púlpito da Igrejinha Galáctica das Boas Intenções do Progresso e Igualdade Social, na linha "perdoai-me Senhor, que fui contra cotas, duvidei de Obama, acreditei na democracia racial".Deprime-me, além dessa aura mística auto-piedosa, feel good, do recém-converso - e esquerdistas são os puritanos do presente, esse assunto eu trato outra hora - um sujeito tido por antipetista cair assim tão fácil na transformação latinoamericana de luta de classes em luta de raças (C.Q.D., esquerda de ultra-direita). Aquela coisinha fácil, esse achado genial de que dá pra apontar do outro lado da rua - ou a um quilômetro, com mira telescópica - os inimigos, os culpados. Brancos ruins, brancos azedos, brancos do lábio fino e bunda larga, não bunda funda, brancos "branquinhos", usurpadores tomando para si os frutos da natureza da dadivosa à nossas lindas gentes achocolatadas, numa grande conspiração para essa gente bronzeada não mostrar seu valor.
Se vocês pegarem a Veja desta semana, vão descobrir como se parecem esses tais "brancos" que estão em guerra com os "índios" na Bolívia - e rir, se ainda tiver um pingo de juízo. Um caramelo bicolor de para quem diferenciar sem legenda.
Dois posts abaixo reproduzi o argumento com que ele começou tudo isso.
"Hipótese 1, vocacional: ora, negros simplesmente não têm vocação, tino ou vontade de seguir essas carreiras, tipo assim, que pagam mais ou têm mais prestígio. Eles gostam de limpar o chão, servir mesa, roubar, essas coisas.Duas opções obviamente racistas e a conclusão berrando em neon na sua fuça são uma "falso trilema" bastante óbvio - eu não caí. Descontemos essas três opções, já que o próprio Alex de Castro selecionou também algumas idéias dos leitores para fazer o ingrato papel de opção falsa. No geral, o que se tira é ainda assim um falso dilema, a dizer: ou o Brasil é "racista pra caralho" ou simplesmente não há um único racista a pisar nossos 8 milhões e meio de quilômetros quadrados (nota: "racista pra caralho" eu jugaria serem os estados do sul dos USA até os anos 60, a África do Sul era "puta racista da porra" e a Alemanha Nazista é "puta racista pra caralho da porra dos sete mil infernos") .
Hipótese 2, capacidade: ora, vamos ser honestos. Se existe a mesma quantidade de brancos e negros, mas quase todos os médicos são brancos, é porque os negros de fato não têm capacidade de ser médicos. Ou advogados. Ou executivos. São burrinhos, coitados. Limpar o chão é tão mais fácil...
Hipótese 3, racismo: esse país é racista pra caralho".
Alex de Castro fecha o post com o achado genial da sociedade sem pessoas, uma que pode uma "sociedade racista" sem que nenhum de seus indivíduos seja racista, bastando que sejam racistas as estatísticas.
"Uma sociedade com 90% de negros miseráveis e 10% de brancos ricos, mesmo se nenhuma dessas pessoas for "racista", mesmo se todos acreditarem completamente na igualdade absoluta entre as raças, ainda assim será estruturalmente e intrinsecamente uma sociedade racista".Primeiro, o último: se a ilha de Maionésia é colonizada por alienígenas, que ignoram completamente os nativos, no dia seguinte 100% dos engenheiros espaciais serão alienígenas, e a renda da ilha, baseada na produção local de cocos radiativos para a venda em Mu-5231 estará concentrada nas mãos dos alienígenas. Isto não caracterizaria racismo.
No Brasil, os "brancos" em grande parte estão mais ou menos na mesma posição dos "amarelos", e pelos mesmos motivos: um elemento estrangeiro introduzido numa cultura escravocrata e absolutista, com algum conhecimento dos métodos industriais e agrícolas mais avançados, que foram a princípio desprezados pela "elite mestiça" então dominante, mas tornaram-se eles mesmos dominantes ao cabo de duas gerações. Garçons e clientes, como reclama LLL, não são só de cores diferentes, são de sobrenomes - e origem geográfica - diferentes.
O Brasil era uma roça só, a riqueza surgiu onde houve industrialização e o abandono da agricultura de subsistência - o país do arado de mão chegou muito tarde para festa, só nos anos 60, trazendo em si o analfabetismo e a cultura agrícola que prezava muitos filhos e pouca frescura, isto é, estudo. Cultura essa que está acabando, com os pobres tendo menos filhos e cursando faculdades privadas e/ou marginalizando-se conforme o gangsta rap, o funk carioca, ou o que a Regina Casé estiver aprovando. O Brasil que não recebeu os imigrantes tem hoje uma composição étnica diferente das regiões que os receberam, e isso é, sim, um fator da diferença.
Mas há mais nisso. Toda a pobreza gera uma cultura de pobreza, um misto de degradação, indolência, coletivismo e inveja. Pergunte aos cockneys da Inglaterra o que eles acham da possibilidade de terem um filho na faculdade. Os pobres tornam-se menos pobres pelo simples progresso, mas subclasses se perpetuam entre outras coisas pelas idéias que as caracterizam. E o Brasil é um caso especialmente pernicioso de sociedade de classes pré-iluminista, coisa que torna bastante inusitada a união do Partido do Trabalhadores com nossas classes não-trabalhadoras - mas isso é outro tópico. O caso é que a falta de uma cidadania liberal, igualdade legal, é um fator a pressionar os pobres para a desesperança e niilismo.
E chegamos ao racismo. Há racismo e, ao contrário do que quer o populismo de esquerda, ele é bem mais vocal entre os pobres. Se uma velha italiana diz "macaco" e dá uma guarda-chuvada em Perdizes, é notícia, mas se é uma cearense da Vila Menck, não. Além da educação, existe isso de identidades coletivas - ser o tal "branco" - serem mais importantes para as pessoas com problemas de auto-afirmação, como ocorre com quem se sente periférico. Vou além: no racismo à moda brasileira, é mais fácil de alguém com identidade borderliner, o antigo "pardo", explicitar seu racismo para se identificar com o lado branco do que fazer o mesmo um alemão galak, que teve de aprender a ficar na defensiva para ser aceito no seio da pátria.
Quando uma pessoa que já é marginalizada pela pobreza enfrenta esse tipo de coisas ela se vê duplamente escanteada, assim ficando com duas vezes o problema de superação da cultura de subclasse. E o maior risco então é que o negro seja dominado por seu próprio ódio, que tome todos os "brancos" pelo dono da venda da esquina, coisa que pode destruir todas as oportunidades profissionais que venha a ter na vida, exceto a vida como militante profissional. Ninguém passa numa entrevista de emprego usando a camiseta de presidiário dos racionais MCs, da mesma forma que não passa usando uma cannabis gigante nem um pentagrama invertido.
Não vou negar que existam contratantes racistas, o que quero dizer é que não são a única face do problema. A esquerda anda tarada em estatística porque é uma forma de chantagem eterna: a perfeição estatística só é possível num mundo totalitário, onde nem empregos nem estatística têm qualquer relação com a realidade. Colocando o racismo de ponta-cabeça, o que se vai fazer é renascer o racismo da parte culpada, que passa a se ver como grupo justamente por ser tratada como tal - ameaçar as "elites brancas" é fazê-los pensar que têm, para um inimigo declarado, uma identidade coletiva.
E não, não vou fingir: não sei o que é ser vítima de racismo, não sei. Nem eu, nem Alex de Castro, nem ninguém vomitando culpas coletivas para sentir-se resgatado do pecado original de não nascer uma vítima. Não importa o quanto vomitem, não importa o quanto chorem, não importa o quanto ajoelhem e rezem.
Sem a destruição da liberdade de consciência, não é possível tornar impossível a velha de Perdizes - talvez mesmo com a destruição. Mas muito se pode melhorar investindo-se na idéia de que pessoas são pessoas - o individualismo, não o marxismo-jabuticaba tornado nazismo de pobre.
*Ilustração: The Black And White Man.


4 comentários:
rapaz, acho que vc está me confundindo com outra pessoa. ou não está lendo com atenção. eu, de esquerda? onde? e, sim, não gosto nadinha do PT. e, não, não como de os americanos estudam a questão das raças, com esse one-drop rule racista. e, não, não acho que a luta de classes deva ser substituída pela luta de raças, nem, alias, vice-versa... as duas acontecem juntas... esse é o objetivo do post q vc citou e aparentemente nao entendeu. nos eua, vc nao pode falar de luta de classes, tudo é explicado com base em raça. no brasil, vc não pode falar em raça, tudo é explicado com base em classe. e ambos estão errados, pois o racismo é um fenomeno sociocultural que, obviamente, nao pode nem acontecer, nem ser estudado, independentemente de classe social. como falei nesse post, racismo é, por definição, um problema socioeconomico.... mas, enfim, se vc nao entendeu aqueles textos todos, nao vai entender esse comentario... e provavelmente vai continuar projetando em mim todas as ilusoes que vc quer, tipo a de que sou um esquerdista puritano recem-convertido, etc (eu, esquerdista e puritano? mandei seu link pra minha namorada e ela morreu de rir com essa parte...) abracos,
Fiu... Calma lá, Alex. Eu não disse o que você é - pouco me importa isso. Eu disse o que uma idéia que você está defendendo e a atitude de seus leitores diante dela significam. Não sou corporativista nem espero que você seja: eu tentei destruir um livro de Ali Kamel, você destrói outro.
Sei que irrita a hipocrisia de chegar a dizer que isso de racismo é inexistente - sim, isso é absurdo, veja como explico a coisa em minha réplica. O problema é o que o discurso racial contemporâneo - e, caro, seja de esquerda, direita, acima ou noroeste, você comprou esse discurso - está nos fazendo notar, e fazendo notar demais algo que, em princípio ao menos, nossa "missão nacional" era ignorar - não o racismo, as raças em si.
é verdade, li um post e respondi em outro, mas lá vai:
"O problema é o que o discurso racial contemporâneo - e, caro, seja de esquerda, direita, acima ou noroeste, você comprou esse discurso - está nos fazendo notar, e fazendo notar demais algo que, em princípio ao menos, nossa "missão nacional" era ignorar - não o racismo, as raças em si."
pra começar, q "discurso racial contemporaneo" é esse? existe isso? o que vc quer dizer com isso? de quem é esse discurso? existe alguma unanimidade sobre esse assunto? do jeito que vc fala, parece que eu sou o porta-voz do senso comum, que eu comprei o discurso dominante da moda, mas acho que é bem o contrário... como dá pra ver pela caixa de comentarios do LLL, eu estou claramente nadando contra a corrente... o "discurso racial contemporaneo", pelo menos do Brasil, pelo menos de acordo com meus leitores, é que racismo nao é lá um grande problema, não somos racistas, não falemos mais nisso, viva a democracia racial...
e o que estou falando é justamente o OPOSTO desse senso comum (como vc bem reparou), que temos que passar a notar e perceber e pensar uma coisa que sempre foi a nossa "missao nacional", o nosso "sonho brasileiro", a nossa "ilusao querida", ignorar: as raças.
veja bem: estamos ignorando as raças há mais de cem anos. fingimos que nao existem, nao falamos nisso, celebramos a mestiçagem, e tal. enquanto isso, os negros continuam sendo mais parados em blitz, ganham menos, morrem mais, estudam menos, etc.
Ou seja, nossa estratégia, nossa missao nacional, claramente nao funcionou. ela só serve pra aliviar a consciencia dos brancos, que nao tem que encarar as consequencias do racismo e podem fechar os olhos com a consciencia limpa. os negros, ah esses sabem bem o que sofrem...
pois bem, se fingir que raças nao existem nao resolveu, nao mudou nada, nao solucionou o racismo, talvez seja mesmo a hora de mudar de tatica e de chamar atencao pra elas...
alex castro
(Copiei o meu e os seus posts para cá)
Muito bem, eu aceito seu argumento. Não é por ser de direita ou esquerda, senso comum ou novidade que algo está certo ou errado.
Mas ainda acho que há uma falsa dicotomia entre importar a visão e o discurso racial dos Estados Unidos e viver o mundo Gilberto Freyre e seu papo sobre "vigor híbrido".
Note que as restrições que eu levantei aqui não negam o racismo nem são uma mera defesa do senso comum.
Talvez eu tenha carregado demais nas cores, mais saiba que você tem o meu respeito. Apenas acho que está caindo em uma armadilha ideológica.
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