O Adriano citou, bem de escanteio, a pulsão de morte. Freud foi coisa com que eu já perdi dias de leitura e mais ou menos 10 mil reais.Depois que parei de fumar, caí em depressão lascada porque não podia mais encostar na parede e me sentir o Humphrey Bogart. Vou dizer o que percebi disso tudo, sem por isso ter me resolvido nada: não existe pulsão de morte. Existe vergonha na cara.
Quem acha que é uma libertação não ter culpa ou vergonha é o mesmo tipo de pessoa que acredita que existiu o dia em que ao ser humano bastava esticar as mãos e pegar os frutos das árvores. Um rosseauniano, um cristãozinho vulgar de merda. Não é a sociedade que cria a vergonha, é a morte. E a vergonha é o que cria a vontade de dar um reset na vida.
Seria fácil se a gente morresse de uma vez, numa data aleatória amanhã ou aos 101 anos. Ao invés disso, morremos durante a maior parte da vida. Se você é mulher, talvez possa já estar o que se chama de evolucionariamente morta aos 40 anos, ainda que viva o dobro disso. Você pode mandar ao diabo ou postergar indefinidamente as espectativas de sucesso, responsabilidade, posteridade, filhos. Mas ninguém pode se livrar da vergonha estar se tornando um monte flácido de carne de caixão dia a dia, sem saída, sem volta. Pode-se mentir, pode-se agarrar às anestesias ideológicas da reencarnação e vida eterna, e pode-se andar de bermuda e com um boné virado para trás, tentando adiar o dia em que se percebe que vai morrer. Nestes 5 mil anos de que escrevemos o que pensamos, não houve idéia que seja realmente capaz de consolar alguém por isso.
(Essa é a razão porque acho extremamente cruel que se fale das plásticas malfeitas das velhinhas. O que se quer, afinal? Que aceitem que estão morrendo? Você, por acaso, é capaz disso? Fosse uma coisa boa aceitar a morte, o suicida, que adianta o trabalho do tempo, seria o maior dos sábios).
Qualquer um que percebe que o tempo está passando tem a certeza que o futuro será pior - será mesmo, ao menos para si e num sentido que nem de longe é desimportante. No futuro você é um velho, como pode ser melhor o futuro? Eis o gosto de criar fantasias horríveis para o futuro, é uma vingança contra os jovens, que certamente viverão num mundo pior.
Ao contrário do que o cristianismo onipresente em nossa literatura quer fazer crer, se nos tornássemos imortais estaríamos no mesmo instante livres do tédio e da melancolia. O mundo é seu para conhecer se você tem todo tempo, nem um rio nem uma pessoa jamais serão iguais duas vezes. De fato, um imortal seria tão feliz que estaria imediatamente excluído do que se chama de humanidade, e certamente todas as nossas milenares literatura, religião e filosofia perderiam todo sentido para ele. Seria um pós-humano e sua mera existência seria tão insuportável que as pessoas fariam de tudo para matá-lo.


2 comentários:
Wow. Sempre encarei a idéia de imortalidade como um tédio sem fim (até o papa o fez na "Spe Salvi", se não me engano). Mas a idéia de eternidade como libertação da morte e como pós-humanidade é boníssima.
Na política sempre tem quem "estica a mão" !!
Os políticos são todos uns "Rousseauístas" (rsrs) !!
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