Ayn Rand foi uma judia russa que emigrou para o Estados Unidos e criou sua própria escola filosófica. Jamais ouvi falar dela na faculdade, e não é só porque ela era "americana", nem porque foi um ícone popular, desconfio que nem mesmo porque defendesse o livre mercado. Ela é ignorada simplesmente porque o que ela falou vai contra todo o espírito da dita academia brasileira, e da cultura brasileira lá festejada também.O que Rand disse é que a realidade é real. Isso, pasme quem não está acostumado aos melindres da filosofia, é um dado revolucionário. Desde os gregos, a filosofia propõe uma pergunta metafísica: será que o que temos por real é real mesmo? Os idealistas, como Kant, respondem que vivemos numa espécie de realidade virtual dos próprios sentidos, e a natureza verdadeira de, digamos, um teclado ou um mouse, é impossível de saber. Você só pode saber o que você vê, cheira, ouve ou toca, mas isso é limitado por seus próprios sentidos. Assim sendo, fatos que ninguém conhece simplesmente não existem, porque ninguém pode pensar neles. A velha história da árvore caindo na floresta e ninguém estando lá para ver: ela não caiu, ela não existe.
Existiram, é certo, filosofias antimetafísicas, que ignoraram a questão e foram adiante. Exemplos são o positivismo e o marxismo. Outras, como o existencialismo, abraçaram ela ao ponto de dizer que simplesmente "tudo é absurdo". Para Ayn Rand, as primeiras caíram na armadilha de se recusar a questionar a existência, as segundas adotaram a resposta errada.
Ela mostrou a conseqüência de não pensar na realidade. Se alguém não filosofa, esse alguém é esmagado pela filosofia. Ao menos uma convicção é fundamental para uma pessoa agir moralmente: o mundo exterior existe. Caso contrário, mesmo sem se adotar o idealismo racionalmente, irá se agir como se só existisse o que está na sua cabeça, e daí passar a misturar o que se percebe e o que se sente com a realidade. Essa é a forma de pensar do primitivo, do paranóico e do adolescente. E é a causa da pieguice, do populismo, da inveja entronizada da esquerda, do wishful thinking e das utopias assassinas.
De não estar convicto de que exista verdade, existam fatos que não podem ser mudados e, pior, existam outras pessoas e elas não são necessariamente o que você está sentindo por elas, é assim que surgem tanto idéias que justificam as piores abitrariedades, como o relativismo cultural, como idéias que causam esses mesmos horrores, o fascismo e o comunismo.
Pensei e escrevi tudo isso por causa de um post d'A Torre de Marfim, onde Arranhaponte louvava a incerteza e combatia a convicção. Conheço ele o bastante para saber a quais bovinos e fanáticos ele se referia. Mas esses mesmos bovinos e fanáticos olham pro lado de cá da cerca e repetem a mesma coisa: seríamos nós, "a direita", que estaríamos seguindo com a boiada. Por exemplo nisso de não gostar de bandido.
Não, Arranhaponte, existe ao menos uma convicção que todos devem ter: que existe a realidade e que ela não corresponde a suas frustrações nem é moldada livremente por sua vontade, mas apenas dentro dos limites de seus atos. O resto é adolescente tentando curar a humanidade com um violãozinho e um baseado. Ou marxista transformando seu egoísmo e inveja em "história da luta de classes".


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