Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Fascismo dengoso

U-uuurh! Colonizado! Colonizado! Colonizado!
Vamos então ao nervo da questão. Why not tupy?

No século 19, já havia românticos - e como durou o romantismo aqui! - escolhendo nossos índios como bons-selvagens rosseaunianos e mitos fundadores da nação (pensou José de Alencar, pensou certo). Realistas como Machado de Assis, Aluísio Azevedo ou Raul Pompéia se preocupavam mais no universal e, se construíam literatura, construíam muito pouco da dita "identidade nacional". Pelo contrário, qualquer realismo não podia deixar de olhar com nojo a sociedade escravocrata e parasítica do país. Assim como o primitivismo e submissão dos próprios escravos.

No começo do século 20, Lima Barreto satirizava um certo Policarpo Quaresma e sua utopia nativista, seu desejo de trocar cognac por cachaça, petit-pois por feijão, piano por violão, português por tupi. E toda a sociedade ria com ele, ainda que haja algo de digno, heróico, quixotesco em Policarpo. Porém, tanto Lima Barreto como João do Rio e outros intelectuais da Bele Époque queriam o Rio como Paris, e quaisquer planos de reforma urbana incluíam civilizar a paisagem com jardins franceses finamente aparados. Como todo mais que era importado da França, a idéia de nacionalismo étnico também chegou aqui. Idéia que levou à Primeira Guerra, e à Segunda também.

Havia um sério problema, contudo. O racismo científico de Francis Galton ou Franz Boas considerava a condição primitiva como natural em povos africanos ou ameríndios. Euclides da Cunha, para citar um exemplo, comprava sem pestanejar essas teorias. O sertanejo era um forte, mas também era um bruto. Enfim, éramos muito pretos. Amigos da ciência que eram, os positivistas republicanos tentaram - e conseguiram - branquear o país com a imigração. Mais brancos, mas ainda mestiços.

Quando o fascismo fascinava por aqui também, surgiu uma solução. Assim como no Uruguai e na Argentina, nosso nacionalismo étnico exaltaria o mestiço como raça superior. Tinhámos, assim como os cachorros vira-latas, certo "vigor híbrido". Gilberto Freire, herói inconteste de todo fascista brasileiro, nos pinta assim, calientes, um perfeito estereótipo hollywoodiano:

Faz parte do mito brasileiro do amarelinho que o mestiço que disfarça o seu vigor híbrido debaixo do seu aspecto fraco é, na realidade, um David capaz de vencer qualquer Golias branco, em qualquer competição, incluindo a sexual. O mito faz dele o galã preferido das mulheres, um herói discreto mas verdadeiro.

Nacionalismo original esse que surgiu, exaltando nossa contribuição ao mundo ao demonstrar que caralho não vê cor - afinal, por dentro, é sempre cor-de-rosa. O nacionalismo étnico encontraria sua expressão musical no samba, misto de tambores africanos com violão português. E trataria de enquadrar o samba, como provam até hoje os sambas-enredo e suas letras de escoteiro, aí a demonstrar como "O Povo" foi bem amestrado por seus bem-pensantes patrocinadores.

Fascismo e stalinismo, totalitarismos populistas, ambos amavam ao folclore. Luís da Câmara Cascudo, rematado fascista, foi o maior folclorista do país. Muitas lendas que ele desenterrou são ouvidas na escola primária até hoje. E em nenhum lugar mais: Saci Pererê e Mula Sem Cabeça são coisas de livros, nem um pouco menos que o mago Gandalf e o hobbit Frodo.

E houve, é claro, os Modernistas, inspiração para o nome deste blog. Estes lutaram para construir uma identidade não-ocidental ao Brasil porque, afinal, sabiam que não eram tão bons quanto os artistas europeus que plagiavam. Assim, teríamos aprendido com os índios o que ninguém mais sabe, a "antropofagia". Essa coisa de "deglutir" tradições culturais importadas - sem inferir com isso - por favor! - o resultado do processo de digestão. Todos os povos do mundo fazem esse "canibalismo", mas o problema vai além do inautêntico. Com seu "Tupy or not tupy, that is the question", Oswald de Andrade mostrava na prática o que entendia por antropofagia, transformar uma frase de impacto filosófico num trocadilho besta. Eternizando e glorificando assim nossa mesquinharia. Trocadilho, de resto, besta e fascista: você é ou não é, está conosco ou está com eles.

Estou com o mundo, Oswald, obrigado por perguntar. O Brasil também está, mesmo que viva em negação, afinal alguns acadêmicos franceses dizem por aí que a culpa de tudo é do Ocidente, e não queremos participar dessa culpa, né? Gostam mais da gente assim. No entanto, esse pequeno arquipélago do pacífico chamado Brasil, hula-hula o ano inteiro, sacrifícios a deuses exóticos, mulheres vestidas de galinha, isso tudo nunca me disse respeito. Nasci com fumaça de óleo diesel na cara. Super Mario me diz mais que Curupira. Duvido que seja diferente para 70% do resto. Mas os fascistas me acusarão de colonizado. Me chamarão de inimigo. Sou, enfim, irremediavelmente "not tupy".

E o que é a "filosofia not tupy"? Que o Brasil deixe de enxergar tipos e passe a finalmente respeitar as pessoas. E que aprenda a sublime arte da auto-crítica, sem por isso confundi-la com ódio de classe, os inimigos internos. Brasil não é uma utopia easy listening dos anos 40. Brasil é o que fazemos agora. Na Finlândia, há quem relacione "Brasil" a trash metal. Faltam os sinhozinhos das faculdades e cadernos culturais acordarem para o fato.

Só assim deixaremos de ser um resort de turismo sexual para representarmos alguma coisa mais altiva para o mundo. Meu anti-nacionalismo é uma questão de patriotismo.

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