Domingo, 30 de Setembro de 2007

Cartilha comunista

Enquanto este blogue cheirava a rato morto e ficava balbuciando "cérebro", aproveitei para não fazer sucesso em inglês também. Meu perfil na uncyclopedia, atualmente também assunto para George Romero está lincado ali na prateleira dos linques. Uma das coisas que fiz e o Sílvio Santos não viu, mas a mulher dele viu e disse que era muito bom é isso aqui:

Practical Lessons on Communism

Não consegui achar nada, mas li por aí que andaram relançando umas traduções de livrinhos do camarada Dzhugashvili, enquanto que, a considerar pelo número de edições, Friedrich Hayek, Milton Friedman, e Murray Rothbard são considerados discurso de ódio - quem sabe você seja fichado nos arquivos da Abin se for pego tentando ler literatura subersiva neoliberal.

Minha modesta colaboração portanto, à memética lusófona. Com direito a cirílico fajuto.

-Olá, crianças, todo mundo aqui? Tudo jóia? Sua mãe também, Zequinha. Certo, lá vamos nós então com as:

ДЏLДS PЯДTICДS DE CӨMЏИISMӨ


Aula 1: da igualdade

-Então, todos prontos? Vou começar: quem fez o dever de casa?

Todas as crianças levantam as mãos, menos Zequinha de Oliveira.

-Oh, Zequinha... Pobre pobrinho... Certo classe, agora prestem bem atenção. Vamos começar com o primeiro conceito de comunismo. Notem, o Zequinha aqui é muito pobre. Ele mora na invasão e todo santo dia sua mamãezinha aparece em casa bêbada, carregando um sujeito diferente pela mão. Vocês acham que é justo dar um 0 para ele enquanto os riquinhos aqui da frente sempre levam 10?

As crianças balançam a cabeça, meio que hesitando.

-E tem mais. As crianças do meião normalmente levam 6 ou 7. Vocês acham que eles são piores que os CDFs aqui na frente?

Dessa vez mais alunos concordam, com mais vigor. O professor levanta o tom da voz, como discursando:

-AGORA ESCUTEM, ALUNOS DO MUNDO! Vocês acham que é JUSTO alguém ganhar um ZERO só por ter uma mãe ruim, ser preguiçoso ou simplesmente burro? Será que os que tiram 6, 4, 3 INFERIORES aos CDFs privilegiados filhinhos-de-papai aqui na frente?

Agora a classe inteira urra em pura fúria revolucionária. Menos as fileiras da frente.

-Então, estou abolindo as notas. Todo mundo aqui é igual! Todo mundo aqui tira 10! E sem dever de casa!

A classe inteira está em convulsão, berra e joga coisas para o alto, e nos CDFs da primeira fila.

-Calma lá, criançada, calma lá. Agora eu pensei... É, foi mal, péssimas notícias. Se alguém inventou uma coisa tão chata quanto dever de casa, devia ter um motivo... Alguém se lembra qual é?

As crianças ficam em silêncio até que Marco Schilling, da primeira fila, responde: "Éee... aprender coisas?". E toma uma bolinha de papel na nuca.

-Certo, Marquinhos, é isso aí mesmo. Vocês vêem crianças, temos um dilema aqui. Apesar de nossa revolução, vocês ainda estão aqui para aprender coisas. Então não tem jeito, vamos ter que tornar o dever de casa obrigatório de novo.

A molecada fica resmungando desapontada. Marquinhos:

-Mas e aí? Sem as notas, como é você vai fazer a gente trazer a lição de casa?

-Por que você está perguntando, camarada Schilling? Por acaso está pensando em não trazer seu dever de casa? Já pra diretoria!

O professor resmunga entre os dentes.

-Isso acontece.

Um grito fininho é ouvido de algum lugar.

Aula 2: da motivação

-E aí, como é que vão, crianças? Quem trouxe a lição de casa?

Todos levantam as mãos, menos Zequinha. O professor olha pela ponta de seu nariz:

-Camarada Zequinha?

-Camarada Professor, deu problema lá em casa. Quebrei um copo e minha mãe me encheu de cintada.

-Camarada Zequinha... Você sabe, problemas todo mundo aqui tem, mas é preciso fazer um sacrifício por nossa causa. Você vai tirar 10, mas tem de fazer seu trabalho, igual todo mundo.

-Mas eu sou pobre, camarada! Você mesmo disse isso ontem!

-Não existe mais pobre e rico aqui. Essa é uma classe sem classes! Todo mundo tira 10! Mas esse sonho não pode acontecer sem um esforço coletivo. Zequinha! Pra diretoria!

A classe murmura surpresa.

-Não perguntem, classe! Eu sou o líder, eu sei o que vocês precisam. E ISTO é preciso, a não ser que vocês queiram as notas de volta.

O professor encara pesamente.

-E eu tenho certeza, ninguém quer essa injustiça imunda de volta. OU QUER?

Silêncio. O professor se senta a arruma os óculos na cara, abrindo o livro.

-Muito bem, vamos pra segunda lição. Eu disse que estamos aqui para estudar, e estudar é uma coisa boa. Mas não é só lição de casa. Sabem, enquanto eu estou falando com vocês aqui, tem gente lá no fundo jogando PSP. Fingindo pra si mesmos que eu não posso ver.

Um clique é ouvido do fundão.

-Ótimo. Então vou perguntar. Como é que vou ter certeza que todo mundo está prestando atenção sem dar notas diferentes?

Marco Schilling levanta a mão:

-Mandando quem não presta atenção pra diretoria?

-Exato! Agora você vai pra diretoria, camarada Marco.

Marquinhos sai chorando.

-Bem, certo, certo ele até estava mas...

-Então por que ele foi pra diretoria? - pergunta da segudna fila Lúcia Fernandez.

-Você também, camarada Lúcia, pra diretoria!

Uma risada dura se forma no canto da boca do professor.

-Mais perguntas?

Nenhum ruído na sala.

-Ótimo, então me deixem falar. Todos aqui tem que estar completamente comprometidos com nossa revolução. Vocês não vão dar bola para os outros, os reacionários, os que querem acabar com nosso sonho. Vocês não vão me decepcionar, entenderam? Se eu digo todo mundo presta atenção, então todo mundo presta atenção! Simples assim! E o mais importante de tudo é que vocês não vão fazer isso porque estão medo de eu mandar vocês para a sala do diretor. Pensar desse jeito já é motivo suficiente pra eu mandar vocês pra lá.

O professor dá um soco na mesa.

-Aula encerrada!

Aula 3: dos contra-revolucionários

Aninha, mordendo a caneta, levanta a mão e pergunta:

-Fessô!... Opa, dexxculpa! Camarada! Minha mãe me disse que você é um cão servador burguêis da mielite branca, tentando assustar a gente!

-Camarada Ana?

-O que?

-Já sabe...

Aninha sai fungando.

-A propósito, classe, a propósito! Existem outras classes aqui que ainda não adotaram o comunismo. Eles insistem em dar notas diferentes para os alunos. É, isso é triste, e a gente tem de fazer alguma coisa. Primeiro, eu quero que vocês falem do que está acontecendo aqui no intervalo. Mas vocês precisam usar de delicadeza para convidar as outras crianças para as alegrias de uma sala sem notas. Sendo claro, é assim: falem das coisas boas e deixem pra lá as coisas ruins. Aliás, coisa ruim simplesmente não existe aqui. Se alguma coisa te deixa incomodado, você é que não tem fervor revolucionário suficiente. Vocês tem que convencer os alunos lá fora a fazerem pressão para seus professores transformerem suas aulas em aulas comunistas como as nossas. Eles podem até fazer abaixo-assinados para o diretor demitir profesores resistentes. Mas...

O professor tira um pacotinho do bolso.

-Claro que eu não posso ficar pedindo coisas pra vocês sem um tipo de compensação. A nota vai ser 10, mas esse trabalho exige boa-vontade e educação. Então, para quem conseguir mais assinaturas para demitir professores capitalistas, eu vou dar esse pacote de M&Ms.

O gordinho Alberto Marconi, na 3ª fila, abre seu próprio pacote de M&Ms.

-Mas que diabo é isso, Aberto? Você é uma vergonha para a causa! Como é que você pode ter esse pacote enquanto o Carlinhos só tem uma barra de cereal? Vou confiscar esse pacote e você vai ver o diretor. Se mexe!

O gordinho sai e professor dá de ombros.

-Novidade, classe! Agora eu tenho duas dessas! Todo mundo feliz?

Ninguém responde.

-Vocês ainda não entenderam, né? Vejam, a gente talvez - talvez - tenha até alguns problemas, mas não temos mais notas e isso é tudo o que interessa. Mas vocês não podem deixar a turma lá de fora confusa demonstrando insatisfação. A gente tem que converter eles pra nossa causa, se lembram? Então vou perguntar de novo. Todo mundo feliz?

Uníssono:

-Sim, camarada professor!

-E eu também! Agora vou explicar o que eu vou fazer com o outro chocolate. Então eu vou passar umas missões secretas para nossos melhores camaradas. Mas só quem ganhar a missão que vai saber o que é - a missão é secreta, oras! Não é emocionante? Tem mais: amanhã vai ser a prova, então eu vou dar outro pacote a quem dedurar mais gente fazendo cola. Só não falem isso alto, que as crianças lá fora podem entender a gente mal. Só escrevam no canto da prova quem estiver colando, em letra miudinha. Vocês concordam?

Silêncio petrificado.

-EU FIZ UMA PERGUNTA! VOCÊS CONCORDAM?

-Sim, camarada professor!

Marco Schilling levanta a mão, tremendo:

-Ca-ca-ca-camarada professor! Camarada profesor!

-QUE QUE É?

-É, é... tipo assim... Todo mundo vai tirar 10, mas dar M&Ms pra alguns não deixa a gente... você sabe... tipo assim, desigual?

-Garoto...

-Tou indo, tou indo!

-Ótimo. Todo mundo feliz?

-Sim, camarada professor!

Aula 4: a prova

-Certo, pequenos camardas! Primeiro, as boas notícias. Aqui vai um pacotinho de M&Ms para o camarda Serginho, que tacou fogo no lixinho da classe capitalista no final do corredor. Outra para o camarada Carlinhos, que grudou chiclete no cabelo de três meninas burguesas. E uma especial, com recheio de amendoim, para nosso proletário-modelo, Zequinha, que colou uma plaquinha escrito "me chute" nas costas do professor de economia.

Pequenos "parabéns, camarada" pululam no ar.

-Camarada Sônia Lúcia Almeida! Camarada Otávio Miranda Jr.! Fernando Moretti! Patrícia Veiga! Aqui, na minha frente!

-Eu notei que suas mães entraram com um abaixo-assinado para acabar com nossas aulas de comunismo. Vocês tem algo a dizer em sua defesa?

-Eu falei pra ela não fazer isso!

-É, eu também!

-Ai, mãe, que desgraça!

-Buáaaaaa...

-Bem, eu não estou punindo vocês, pequenos camaradas. Estou punindo a mãe de vocês. Todo mundo pra diretoria!... Mas antes, classe, uma vaia bem grande aqui pros traidores.

As crianças mandam uma vaia feroz. Um caderno aparece voando e vai direto na testa da Patrícia. Outras crianças estão com os cadernos nas mãos, prontas pra atirar.

-Ei, ei, ei, calma criançada, calma! Isso é só uma simulação, não é comunismo de verdade...

-Reacionário!

-Quem falou isso?

...

-QUEM FALOU ISSO?

...

-Um pacote de M&Ms pra quem disser quem falou isso... Opa! Tá na mão, camarada Pedro. Agora, Zequinha, meu pequeno Bakunin, o diretor vai te explicar a diferença entre socialismo utópico e socialismo científico.

-Vamos à prova então, classe. Ah, é verdade, eu quase esqueci. Camarada Marquinhos, pra fora!

-Por que? Eu não fiz nada! Viva a revolução!

-Nenhum motivo em especial. Me deu vontade. Vai! Agora, pro resto de vocês, a prova...

-Camarada professor! Posso perguntar uma coisa sem você me expulsar? - pede Aninha.

-Sim?

-Se todo mundo vai ter a mesma nota, para que a prova?

-Porque eu quero saber quem estudou direito. É informação classificada para mim. Agora, um por um, peguem o papel aqui, camaradas.

PROVA DE COMUNISMO

NOME:_______________________________________________

1. Marque o nome do melhor amigo de Karl Marx:
( ) Engels ( ) Ângelo ( ) Obi Wan ( ) Eugênio ( ) Mickey

2. Qual é o melhor?
( ) Porsche ( ) Ferrari ( ) Bicicleta ( ) Lada ( ) Ford

3. Qual é o pior?
( ) Morte ( ) Pum ( ) Purgante ( ) Tortura ( ) Capitalismo

4. O monstro que assusta as crianças à noite:
( ) Boitatá ( ) Brontossauro ( ) Bicho-papão ( ) Belzebu ( ) Burguês

5. Se você bombar nessa prova, sua mãe vai:
( ) Ficar brava ( ) Rir ( ) Sumir ( ) Ser mandada para a Sibéria
( ) Eu não ligo. A revolução é tudo o que interessa.


Aula 5: Perestroika!

-Bom dia, crianças! Todo mundo feliz?

-Sim, camarada professor!

-Bom saber disso. Agora eu vou passar as notas da prova de ontem. Ru-rum, aqui está... É um 5 para todo mundo!

-Mas... mas...

-Quietos! Não terminei ainda. É, é um cinco pra todo mundo. Quando eu disse que todo mundo tirava 10, estava falando em condições ideais. Na verdade, o 5 é a média da prova para toda a classe. Exceto para quem foi expulso ontem, como Marquinhos e... (suspiro) Zequinha. Para esses a nota é zero!

-Mas... mas...

-Marquinhos, você pode parar de gaguejar, agora. O regime comunista acabou! Na próxima prova, eu vou dar notas diferentes para vocês todos, como sempre.

-Então... posso perguntar um negócio sem você me mandar pra diretoria?

-Sim.

-Sério?

-Bem-vindo de volta à liberdade, meu garoto!

-Certo, camarada... quer dizer, senhor! O comunismo é mesmo tão ruim assim?

-Bem, no comunismo de verdade, os M&Ms têm gosto de plástico. E, quando você vai pra diretoria, não volta nunca mais.

Конец фильма

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