Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Um oxímoro: democracia liberal

Vamos, sem tentar um rigor exaustivo, estabelecer a que tendências levam os termos "liberal" e "democracia".

Liberal quer dizer controlar o poder do estado. Isso é feito por meio de leis definidas na forma de hierarquia, com a constituição, que define direitos, acima das outras leis. Como garantia adicional, o sistema liberal tem poderes que se contrabalançam. O que se visa é garantir os direitos individuais, isto é, o sistema liberal é uma forma de impedir que a vontade do Estado, seja ela resultado do desejo da maioria ou de uma oligarquia, se sobreponha ao direito do indivíduo.

Democracia é uma forma de legitimar o Estado, de dizer por que você deve pagar por ele e obedecê-lo. Significa que esse Estado, por representar a vontade plebiscitária da maioria, pode forçar a você realizar os desejos dessa maioria, que resistir a ele é um gesto elitista e egoísta. Significa também que, como você tem o direito - dever na forma aberrante brasileira - de tomar parte no processo eleitoral, você é responsável, culpado por esse Estado.

É engraçado isso da mística da palavra "democracia" hoje em dia. É usada como sinônimo de "bem", "justiça", "piedade". Mas, em absolutamente tudo na vida, esses que usam "democracia" como quem antigamente usava "vontade de Deus" rejeitam o método democrático. Por acaso é de bom tom ter seu gosto musical pautado pela massificação? Filmes? Alimentação? Vestuário? Por que diabos então se confia tão inquestionavelmente o poder do Estado à vontade da maioria? Seria o monopólio da violência um assunto menos relevante do que o que há no seu iPod?

Sim, pode bem ser como Churchill disse, "o pior sistema exceto todos os outros que foram inventados". A vantagem da democracia, me parece, é que cada tirania dura no máximo 8 anos. Mas desconfio sinceramente que estaríamos melhor se ao invés de eleições tivéssemos uma rifa, partida de pôquer ou concurso de natação para pegar um ovo de gaivota numa ilha.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Dawkins

Sendo eu um ateu, é meio como falar daquele parente que veio junto, entornou todas e vomitou no carpete. Não sei por que Dawkins não quer deixar as pessoas religiosas aproveitarem a vida, não sei. Definitivamente é o argumento mais boçal imaginável para não crer esse de "venha para onde está o prazer, venha para o mundo do indecoro". Pombas, até meu pai, que é filho de um pastor da Assembléia de Deus e hoje é diácono da Igreja do Evangelho Quadrangular, resolveu ter seu momento de fuzarca na juventude. Isso não quer dizer nada, ser ateu não é "aproveitar a vida", é uma decisão intelectual com seriíssimas e muitas vezes dolorosas consequências. Muito mais fácil, aliás, parece ser aproveitar a vida ao lado do Grande Amigo Invisível. E essa campanha cafajeste dá toda a razão para quem acredita ateus são um bando de pilantras, que na falta de Deus toda moral é insustentável.

Para ser bem sincero, a própria religião me parece uma espécie de prazer culpado. Quando um religioso é escanteado em argumentos, demonstra a mesma agressividade envergonhada daquele gordinho que é pego à 1h30 assaltando a geladeira.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Unimpeacheable

De pensar nas leis de Honduras, acabei por perceber o tamanho da arapuca em que os USA podem ter se envolvido. Não é que eu ache que exista qualquer motivo para isso, mas percebam que Barack Hussein Obama é um presidente totalmente à prova de impeachment.

Não importa o que ele possa vir a fazer, se lhe desse na veneta rasgar a Constituição para enrolar um baseado com Charles Manson enquanto bombardeia com napalm filhotes de foca em extinção na Amazônia, ele não poderia ser deposto. Se O. J. Simpson, um troglodita imbecil, fez negros e brancos quase cerrar fileiras de guerra pelo fato de ser julgado por matar sua mulher, imagine o que ocorreria com a queda do profeta?

Vou repetir: eu não acho que há qualquer motivo para impichar Obama. Só estou dizendo que, se houvesse, seria impossível.

Assim sendo, não só Obama é ocupa o cargo mais poderoso do mundo, ele é o presidente americano mais poderoso da história. Será que ele é assim Obamanana por disposição natural ou acabará percebendo isso e se tornará um Napoleão Obanaparte?

O que eu ouvi hoje

Nunca vi jornalista que tenha lido Ayn Rand, Mises e Rothbard. Só por isso está contratado!

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Cansei

Quer saber, estou até aqui com Honduras e suas leis exóticas, um país que obriga a escolher entre apoiar uma missão top top secret James Buendia cucaracha e defender a volta de um chavista criminoso e provocador.

Para muita gente, deixo para sempre de ser uma vestal democrática, maculado como apoiador de um golpe gorilístico, flashback guerra-fria. Sabe o Herzog? Eu matei. Sabe a Dilma? Eu torturei. Sabe o Pasquim? Eu censurei.

Torno-me um maldito, e tudo por quê?

Por causa do país da Guerra do Futebol.

Quartelada não

Ignorem o último post, a coisa é mais complicada do que eu pensei. Ao menos a acreditar nesta fonte, a constituição de Honduras não permite o impeachment e o exército agiu sob ordens da Suprema Corte. Continua sendo bastante exótico jogar o cara de pára-quedas no país ao lado, mas, tomando por premissa que, ao se aliar a Chávez contra o congresso e judiciário do próprio país, Zelaya foi longe demais, ficamos com duas possibilidades:

1. A lei permite o impeachment: judiciário e legislativo são golpistas;
2. A lei não permite o impeachment: a única possibilidade de depor o presidente era a ação militar .

No segundo caso, a constituição hondurenha é falha - ou é justamente o resultado de um país que sofreu de muitos golpes e populismo o passado. O que não significa, evidentemente, que será um progresso substitui-la por uma carta bolivariana.

O correto seria trazer o homem de volta e julgá-lo - já que não foi uma quartelada, parece mais fácil. Mas existe essa possibilidade?

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Quartelada

Vamos deixar claro: a única via aceitável seria um impeachment. Agora imagine que você faz parte do governo civil, empossado pelos militares, que dizem ter cumprido sua função constitucional. Quando o golpe já foi dado, como proceder? Chamar Zelaya de volta para então impichá-lo? Seria igualmente correto, mas note-se que você está entre dois golpistas: isso pode ser o caminho ou para o chavismo ou uma ditadura militar.

Acho que Zelaya volta, por pressão internacional, e espero que minha profecia esteja errada - por ambos os lados.

Chega de saudade

Até o momento, por mais que queiram os saudosistas, os que gostariam que a história se repetisse para que seus instrumentos intelectuais obsoletos voltassem a parecer úteis, acho que não chegamos ainda em Brasil-64 nem em Chile-73. Zelaya, presidente expulso de Honduras, foi quem começou por convocar o exército para garantir seu referendo, que havia sido julgado inconstitucional pelo congresso, o judiciário e até alguns de seus partidários. Como o líder do exército não quis continuar o que julgava ser inconstitucional, foi demovido do cargo por Zelaya - e então as coisas aconteceram como aconteceram, na forma de uma quartelada. Seria talvez um flashback, não fosse o poder a seguir foi passado para o líder do congresso - ditadura militar que, ao invés de fechar, põe o congresso no poder? Ao menos até agora, não, não é a mesma coisa.

O correto - e chamariam isso de golpe assim mesmo - seria um impeachment, prisão em caso de mobilização ilegal. No entanto, sendo estratégico/cínico, mesmo sendo um processo legal, isso teria o mesmo efeito do golpe contra Chávez de 2002, e Zelaya já estaria de volta agora. A constituição de Honduras dá aos militares a função de garantir essa mesma constituição. Como interpretar o gesto diante disso e da exoneração do líder do exército por se recusar a cumpir uma ordem inconstitucional?

Ao Itamaraty, em todo caso, parabéns. Tão plácido com as 300 mil mortes e escravidão negra no Sudão, e aquela briguinha entre vascaínos e flamenguistas lá do Irã, não considerou esta partida um amistoso e interveio de pronto, bem imperialista.

Edit: link para Tambosi - a coisa é pior do que eu pensava. Chávez foi quem produziu as urnas e cédulas do plebiscito, e começou a provocar o exército.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Insólito profeta

Nenhuma pessoa levou tão às últimas consequências o fato de ser dona do próprio corpo quanto Michael Jackson. Ele encarnou até o paroxismo de tornar-se um mártir a revolta contra a natureza tornada possível pela tecnologia, a não-aceitação em ser aquilo para o que se nasceu, ao que seus genes o condenaram. Não importa suas decisões serem motivadas por um tipo de insanidade, ideias perversas a respeito de raça, uma auto-imagem distorcida, e um gosto discutível, Michael Jackson tornou-se o ser que ele quis ser, e nisso foi pioneiro.

(É verdade que muitos outros modificam-se até se tornarem socialmente inadequados, mas vamos tomar Michael como um exemplo visível e que não tinha como intenção se alienar ou fazer disso o centro de sua expressão).

Já estamos no dia em que é questão importante o quanto podemos nos modificar, não apenas, mas também fisicamente. Pode o corpo humano ser considerado uma obra em aberto ou isso é uma espécie de sacrilégio, de desumanização? Existe algo de antiético num cirurgião plástico transformar alguém voluntariamente em algo que outros entendam por uma aberração, um monstro? Seria isso uma perversão social ou uma manifestação de individualidade, a vitória sobre a natureza cruel, mesquinha, flácida, enrugada e cheia de brotoejas?

Num ponto bem mais trivial, penso nas senhoras da geração Botox. Assim como elas não conheceram o horror das plásticas de olho-de-gato dos anos 70 e 80, espero que as senhoras de minha geração possam dispensar a toxina. Seja como for, acho de mau gosto falar da plástica alheia - é como dizer "velha, aceite morrer": talvez até uma verdade, mas uma verdade grotesca, vulgar, escatológica.

Assim como as mulheres desde sempre trapaceiam a acintosa evolução, que as quer mortas aos 45 anos, a tecnologia será a ferramenta para tornar-se outra coisa que não o programado por essa tirania genética, causada do acaso de seus pais serem feios entre feios, loucos entre loucos, doentes entre doentes, e, finalmente, mortos entre mortos.

A humanidade superou os predadores ao criar as cidades, há 7 mil anos. Superou os germes ao criar a medicina moderna, as vacinas há 200 anos, a higiene há 120, os antibióticos há 60. A vitória sobre a genética e a evolução será uma revolução a fazer a passagem para Modernidade parecer inconsequente. Sem dúvida essa mudança terá seus monstros, personagens tão perturbadores quanto o próprio Michael Jackson, que, se não merece espaço entre os maiores artistas, certamente está entre as maiores biografias da História.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Qualidade de vida

Em São Paulo hoje, dando um jeito no que precisa. Em breve, minha terra, sua megera ingrata, estarei de volta. Acho que tenho mau gosto.

Por incrível que pareça, em que se pese o frio, São Paulo se parece menos com o Brasil que Curitiba. Em Curitiba, as mães ainda empurram os filhos para concurso público. E existe uma coisa chamada Roberto Requião.
 
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