
Você não pode liberar as drogas pela metade, como o governo anda discutindo. A proposta atual, de não condenar mais os pequenos traficantes, teria como resultado criar uma casta inteira de semibandidos inimputáveis, pessoas entre a lei e o crime e ainda assim acima da lei - soldados rasos que são o sonho de qualquer organização criminosa.
O que aconteceria em Chicago dos anos 30 se, ao invés de acabar a Lei Seca, continuasse proibido fabricar cerveja mas qualquer um que fosse pego arrastando um engradado não fosse mais preso? Aumentaria ou diminuiria o lucro de quem fabrica? Seria mais fácil ou difícil distribuir? Ficaria a máfia mais ou menos poderosa?
Mesmo se estiver correta a tese nefelibata, e existe mesmo um abismo entre distribuidores e traficantes que pegam em armas, os pequenos continuariam a morrer por dívidas e não teriam como recorrer ao PROCON quando o fornecedor colocar coisas inadequadas em seu produto.
As facções do tráfico no Rio operam no varejo. Não são o que foi um Cartel de Medelin, uma organização voltada à exportação. Isso quer dizer que todo o traficante das favelas já é de certa forma pé-de-chinelo, um vapor, e não um Pablo Escobar. Também explica a irresponsabilidade deles, o fato de viverem em guerra constante, diferente da pax mafiosa que organizações melhor estabelecidas tentam manter - o domínio das facções do Rio dura pouco, as lideranças são pueris, morrem cedo ou comandam da cadeia, e nao há muita sofisticação nas operações exceto tomar locais, como num jogo de estratégia simplista. Dito de outra forma, o que há no Rio é muito dinheiro indo parar na mão de bandido simplório, sem estratégia e inexperiente.
Apesar da proposta atabalhoada de seu governo, a esquerda seria capaz de concordar comigo numa liberação total. Vamos analisar então a outra parte, os argumentos conservadores contra o fim da proibição das drogas:
1. Liberar as drogas não fará dos traficantes menos bandidos;
2. Liberar as drogas aumentará o consumo de drogas, causando um problema social pior que o tráfico;
3. Liberar as drogas não pode ser feito em um só país, transformaria o Brasil em um corredor de tráfico internacional.
Liberar as drogas não fará dos traficantes menos bandidos, mas tirará deles sua maior fonte de renda. Sem os lucros exorbitantes do tráfico, as facções diminuiriam em número e se tornariam mais discretas em suas ações. Ou alguém é mesmo capaz de imaginar uma guerra de gangues pela distribuição de botijoes de gás ou TV a cabo nos morros? Que o negócio de botijões de gás sustente a compra de mísseis Stinger?
A Lei Seca criou a máfia de Chicago e essa máfia desapareceu com o fim da Lei Seca. Parece um tanto óbvio que a máfia será mais poderosa quando qualquer um que queira tomar uma cerveja precise financiar a máfia para isso. Alguém poderia, e deve ter dito então: "amigo, sua cerveja está matando criancinhas". Se, seguindo essa lógica, as pessoas deixassem de beber, para sempre estaria sedimentada a tirania dos puritanos e toda a disputa se resolveria com esse tipo de lógica circular. Dizem hoje os conservadores: cheirar pó ou tomar E financia o tráfico, pois essas substâncias são proibidas e só podem ser obtidas de traficantes. Assim sendo, é moralmente errado usar drogas. Portanto, as drogas devem continuar proibidas - e continuar sustentando traficantes.
O segundo argumento tem força limitada. Se eu colocar uma pedra de crack na sua frente agora, você fuma? Por que não? E se for um vidro de benzina? Tomar uma cartela de Cataflan e ficar bêbado? Lamber um sapo? Dar um tapa no peito prendendo a respiração e desmaiar? Não?
Qualquer um pode cheirar cola de sapateiro, não é proibido por lei. Como você, careta, enxerga uma pessoa que faça isso? Pois usuários de heroína e crack já são párias, mesmo entre pessoas que fazem uso recreativo de drogas. Na Holanda aconteceu de a região designada para usuários de heroína virar uma espécie de cracolândia, um lugar proibitivo. Isso tem a ver com a natureza do consumo de heroína, assim como o de crack, que são drogas de "junkies", de quase mendigos, ligadas à degradação e auto-destruição.
Na época em que a maconha e cocaína foram proibidas, primeiro nos USA, eram drogas de negão pobre, dos "juke joints" e, racismo à parte, o estigma de degradação que tinham era similar ao do crack hoje. A cocaína inclusive foi, de 1914 a 1937, meio que liberada só para brancos. Durante os anos 20, assim, esteve ligada aos finórios e melindrosas que protagonizaram a prévia da revolução sexual. Em 1937, a proibição dessas drogas foi uma espécie de prêmio de consolação às tias carolas que perderam sua amada Lei Seca. Ao proibir as drogas, acreditavam estar proibindo a degradação social e moral - o que, para qualquer um que tenha visto um mendigo com uma garrafa, é no mínimo tolo.
Hoje em dia, muitos conservadores reconhecem que maconha é quase inofensiva. A favor de sua proibição eles trazem o argumento de que ela "leva a outras drogas". Seria por acaso porque, sendo proibida, a maconha leva ao traficante? Se a questão é que uma droga faz com que a pessoa tenha curiosidade por outra, a primeira e universal experiência de ficar "maluco", a droga que mais leva a outras drogas, chama-se álcool - você pode dizer que, entre usuários de crack, 89% usaram maconha antes, mas certamente 100% beberam antes. Nas festas onde se consomem drogas, há quem prefira não misturá-las, mas álcool é universal.
Nada que se aplica a outras drogas não pode ser aplicado ao álcool. O álcool não é uma droga leve, leve é cigarro ou o café. Ao volante, você pode confiar mais em alguém que tenha cheirado 1 grama de pó que quem tenha bebido uma garrafa de cerveja. Muitas mortes são causadas por consumo de álcool, mas proibir o álcool é, muito correta e adequadamente, considerado um abuso ao direito individual, um ato autoritário. E, ainda assim, muito asno que zurra ao ouvir falar em Lei Seca dá coices ao ouvir falar na liberação de outras drogas, incapaz de aceitar a semelhança. Temos, sim, como dizem, tradição em beber álcool, milênios convivendo com a droga - e de pouco adianta, bêbados irresponsáveis surgem todo o dia, na mesma proporção de sempre. É ver um sem-teto abraçado a uma garrafa de cachaça e saber que isso não é melhor que a cracolândia.
Por fim, existe o argumento do corredor de drogas, que o Brasil não pode liberar sozinho ou se tornaria um pária. Duvide-o-dó. Haveriam charges de cartunistas republicanos e debates irados no rádio e na Fox News, mas seríamos muito mais provavelmente considerados um exemplo. Com a condescendência para os exóticos, somos considerados corretos mesmo quando fazemos tudo errado, brincando de malabarista de granadas com Irã, Venezuela, Síria e Coréia. Liberar as drogas nos faria uma força de pressão para que os Estados Unidos façam a mesma coisa - e desta vez estaria o Brasil mobilizado por uma causa digna.